Site atualizado em: 07/08/2009     
Romance Inédito



 

[Aqui se conta, aos arrancos, mas com rasgos de piedade, a triste vida do Surdo,
seus filhos Jonas e Regina, e da estrangeira que lhes invadiu a casa;
e de como todos reagiram na sua crua solidão à luz de muitas
luas indiferentes ou maldosas]


Romance de Hélio Pólvora

Ce bruit interne…
me rendit non tout à faite
sourde mais dur d´oreille.
Rousseau

A Carlos Roberto Santos Araújo,
poeta do antigo e novo Imaginário sul baiano.

A José Vespasiano, de quem só conheci o pote de barro
em que bebia água; a Pedro, Joaquim, Raquel,
Eustáquio, Joanico, Maria, Moisés, Cosme, Zacarias,
Chico, Terto, Joaquina, Anísio, João Baptista e outros
moradores do Vale — que hoje repousam em outros chãos.

Primeira Parte
F U G A

1 (Regina)
Da casa de tijolo vermelho, no alto, com uma escada de cinco degraus de madeira, desce pelo capim rasteiro um caminho que contorna prudentemente uma cajazeira, para fugir-lhe às raízes expostas, e busca a soleira da casa-grande. Avança de maneira pouco nítida, como se soubesse que o capim, sempre a crescer, apesar de tosado pelas reses, haverá de encobrir-lhe o risco. Perdido nas vizinhanças da casa-grande, se reencontra mais adiante, para mais uma vez descer, porque busca — e agora, certeiramente — o Vale, a estrada real.
Tarde luzente de julho, que antecipa o verão nas suas rudes ardências. Árvores encolhem as folhas, enxovalhadas, calangos levantam a cabeça sobre pedras, em atitude de atalaia perplexa, a paisagem inteira — matos, capim, caminhos e distâncias — parece colhida na fixidez de uma estampa. Cai um silencio espesso, de tal sorte que, se um dos carregadores da rede brandir no ar o facão de vinte polegadas, sempre restará a possibilidade de cortar o silêncio, aquela erma solidão, em fatias de vento solidificado com recheio de pássaros e insetos. Nada se mexe, salvo a rede. Rumores, apenas a intermitente conversa dos carregadores, os seus manejos de preparar cigarros grossos em palha de milho, fechados com cuspo. O vento calou-se.
O Surdo, que vai na rede, morto, para o sepultamento em Ferradas, nada ouviria, se vivo, justamente por ter crescido surdo — ou de ouvidos duros. Ele, que em vida havia temido a morte, se ia agora para o desconhecido, carregado em rede e sem ferir o silêncio mormacento da tarde. Ia-se como fora em vida: surdo. E a paisagem, aquele cenário que ele tanto conhecera a partir do seu umbral, está reverentemente mudo, e quem emudece também costuma fechar os ouvidos depois de trancar a língua.
Era como se tudo houvesse acabado. E, de fato, consumara-se — e se consumira — uma vida.
Primeiro, Jonas. Agora, o Surdo. A rede desce a ladeira, aos solavancos, no rumo de Ferradas. Entra num dos caminhos que sempre levam a um lugar e dali partem para outros lugares, e retomam o seu curso, na incessante busca do lugar ideal, do lugar de repouso, que para isso foram abertos todos os caminhos — tributários e reais.

Perguntei casualmente pelo Surdo, como ia, onde estava, e me disseram que tinha morrido, então não me avisaram? Quando? E morreu como? Não sabiam direito. Fui apanhada de surpresa — aquela surpresa que é uma pancada no lombo e nos deixa tonta. É que parei de morar com ele faz tempo, andei de casa em casa, em serviços de cozinha, pra me sustentar — e perdi o hábito de pensar nele. Sei que se costuma pensar em pessoas ausentes, por saudade ou raiva, mas comigo é preciso conviver lado a lado, dia a dia, no mesmo teto, comendo quase do mesmo prato, pra que eu me lembre da pessoa, pois o meu pensamento vem das minhas emoções feridas para o bem ou para o mal. Se as emoções passam sem me ferir, sem me tocar, esqueço tudo. Agora que tocada estou, numa das cordas fundas, com essa notícia da morte do Surdo, dou pra pensar nele, no que foi, no que fui com ele e para ele.
O Surdo era meu pai. Me ponho a pensar, agora que o sei morto, que naturalmente o levaram, sem acompanhamento de gente do seu sangue, numa rede — a rede encardida em que dormia — para o enterro em Ferradas. Pois não é assim que se faz com os nossos defuntos? A pobreza é muita, impede encomenda de caixão mesmo barato, de tábuas de pinho. Sai mais em conta carregar o morto em rede, no geral suja, com os cheiros que ele teve em vida, menos sufocantes, por sinal, que o cheiro da morte adiantada. Nas janelas e nas portas, ou na beira dos caminhos, pessoas observam a rede gingando com as pontas nos ombros de dois carregadores, e, no meio, fazendo lastro, o morto — aquele corpo mole — a sacudir-se como se estivesse vivo e atacado por uma dor. Os homens tiram o chapéu, formalizados, as mulheres se benzem e engrolam uma oração curta. E segue o funeral — os carregadores se revezam para descansar a dor nas costas e limpar o suor da testa.
Sou, pois, filha do Surdo. Sou Regina, seu único filho mulher. Me criei ouvindo todo mundo chamá-lo de Surdo. Apenas Surdo, somente Surdo, embora nome tivesse, e dos compridos: José da Costa Guimarães. De modo que pra mim a palavra pai ficou sem serventia desde criancinha cagada e mijada no berço rústico. Também, que diferença fazia? Ele não escutava, às vezes era surdo como uma porta maciça, talvez pensasse que eu dizia: pai, ô pai! Outras vezes, nos surpreendia, ouvindo o que não queríamos que ouvisse.
Tenho dúvidas. Ele era sagaz, com a sua surdez de nascença aprendeu a ler na boca da gente, pelo movimento dos lábios. E apurou também outras artes, como a de compor e decifrar charadas. Quem sabe tinha queixa de mim — queixa secreta, abafada no coração — porque não o chamava de pai, tal e qual o meu irmão Jonas? Desconfio que tinha, sim. Quando falava comigo, se estava junto punha a mão no meu ombro e falava bem explicado:
— Regina, minha filha.
Falava assim, solene, compenetrado, como o Regina coeli ou o Salve Rainha da missa. Parece que levantava a voz pra dizer “minha filha”. Me censurava, o Surdo. E eu, pelo habito, respondia sempre:
— O que é, Surdo?
Ele ficava me olhando — e, cansado de olhar, piscava os olhos. Usava óculos brancos, de aros redondos, armação bem leve, e costumava piscar, da mesma maneira que franzia o cenho por qualquer motivo ou encolhia a boca, até em baixo das bochechas, sinais certos de que estava aborrecido ou pelo menos preocupado.
— Quer o quê, Surdo?
Se ele não entendia, e pensava que eu lhe oferecia café acabado de coar, eu me chegava e lhe gritava no ouvido, o que não gostava de fazer por dois motivos: o Surdo não lavava os ouvidos, quando muito os futucava com um palito de fósforo, e o cheiro de cera rançosa era forte, me repugnava; depois, o Surdo não aparava os pelos negros de dentro das orelhas, que saíam retorcidos e emaranhados como os arames que esticava em cercas, e me arranhavam os beiços.
— Quer comer, Surdo?
Eram assim as nossas conversas — ou arremedos de conversa, pingos soltos de água na grama endurecida. De tanto a gente se ver na casa vazia, eu a cozinhar pra ele e o meu irmão Jonas, era como se nenhum de nós existisse de fato para o outro: olhares atravessavam os corpos, se perdiam nas paredes, no ermo. Éramos sombras agachadas, como bichos à espreita, ou aves que se imobilizam para que a chuva escorra sobre as penas acamadas. Há um tipo de gente que vive mais tempo de cócoras, pelos cantos ou no portal, a picar fumo ou cachimbar, do que de pé, na diligência das necessidades urgentes. Se alguém chegava — e quase ninguém vinha — era diferente: os joelhos pareciam ter molas que punham ereto e lesto aquele corpo aparentemente desconjuntado. Ou se passava alguém, ao largo da nossa porta, e raros eram os viandantes, talvez uma tropa de burros tangida por um vaqueiro desconhecido. Encolhido qual coruja num degrau da escada, o Surdo via sempre antes de ouvir, e, pondo-se de pé, alongava a vista, nos chamava pra ver também. Aqueles acontecimentos — a passagem de uma pessoa — eram tão raros que pediam a cumplicidade dos testemunhos, viravam assunto de conversa e suposições. O Surdo queria saber quem era, de onde vinha, para onde ia, de que serviço estava a dar conta o viandante. Eu e Jonas os intérpretes de sua curiosidade. Se demorávamos a acudir, ele se irritava: sua curiosidade tinha pressa, ele próprio falava ao desconhecido, e este, por delicadeza e respeito, lhe tirava o chapéu.
— Boas tardes.
— Boas tardes.
— De quem é a tropa?
E voltava-se para nós, à espera da resposta.
— Como ele se chama? De onde é?
O rosto ansioso do Surdo nos contemplava: testa franzida, olhos inquietos, todo ele uma interrogação aflita.
— É Militão. Vem do Ribeirão dos Cachorros. Leva burro pra ferra.
— Em Ferradas?
— É.
Apaziguava-se então o Surdo. E voltando a sentar-se, se punha a esfregar a mão peluda no queixo, a murmurar lá consigo. Manias. Era o seu jeito. Qualquer incidente tolo — uma cerca tombada, uma cobra morta a pau, uma galinha levada pelo saruê, uma preguiça-coleira arrancada de um tronco por um caçador, um tiro disparado longe, mas que ainda ecoava nos ermos, e que ele não ouvia, mas pressentia nos rostos o sucedido, enchiam os dias vazios do Surdo — a metade dos sábados e o domingo por inteiro, afora os dias santos. Nos sábados, ainda cedo, ainda com o capim molhado, ele metia os pés nas alpercatas de couro cru e o embornal no ombro — e se botava pra fazer o saco em Ferradas ou Rua-de-Palha. Quase sempre na companhia de Jonas. Mas alto e mais forte, avançando na casa dos vinte, meu irmão encurtava as passadas pra não deixar o velho desaparecer atrás. E assim, passos medidos, batiam as alpercatas nos caminhos secos, banhavam os pés no leito raso de ribeirões, atravessavam bosques que pareciam inteiros, sem divisas — e que, de súbito, morriam junto a uma cancela, e a cancela os introduzia numa pastagem, nos arredores de uma casa de que saltavam às vezes cães furiosos. Jonas catava pedras para ameaçá-los, o Surdo se prevenia com um pedaço de pau — providências dispensáveis quando acudia em geral voz de mulher, já que os homens tinham ido à feira.
— Quieto, Relamp´o. Aqui, Gambá.
De cancela em cancela, que deixavam bater com estrépito, como convém às cancelas de rija madeira, e esquivando-se às pontas de touros melindrosos, entravam no arruado de repente, de chofre, como se despejados dos campos verdes no meio de uma rua poeirenta por onde sacolejavam carroças e passavam aguadeiros.
Sei o que faziam até a hora de voltar. Fui com eles uma vez, precisada que estava de uns panos. Andava com um vestido rasgado que revelava pedaços de carne branca das coxas e dos peitos. O irmão Jonas teimou:
— Deixe que eu compro.
— É artigo de mulher.
— Me dê a nota, as medidas. Trago tudo direito, nos conformes.
— Eu vou. Só mesmo mulher pra essas intimidades de roupas.
O Surdo consentiu talvez com certa alegria. Cansado da presença de Jonas? Cansado da tirania de Jonas, que o fazia esperar à-toa, arrimado a balcões, entregue a conversas compridas regadas com copinhos de cachaça? E que vez por outra o abandonava, marcando encontro para duas horas depois, e o Surdo sabendo que estava em casa de putas? Ou será que o Surdo queria também mostrar sua filha carnuda e branca? Bonita não era. Feia, nem tanto — pelo menos, nem tão feia quanto os pecados. É certo que eu não gostava de me ver no espelho: a cara, semelhando uma lua cheia, talvez merecesse beijos, mas a gordura do corpo, e ainda por cima branca, desabava aqui e ali em dobras. Certos machos gostam de demasias, principalmente os de mãos grandes e calosas. Infelizmente mãos de pele áspera, grossa como couros ou cascos, insensíveis a maciezas de mulher. Embora haja os que, alheios ao tato, enchem os olhos com a maré turva do desejo — danem-se todos, garanhões estúpidos! Jonas que tome cuidado. O Surdo diz que o cântaro de tanto ir à fonte um dia há de rachar-se


2
(Jonas)

Com aqueles pés grandes e grossos, que entravam à força em botinas, quando era necessário calçar botinas, e se espalhavam à vontade nas alpercatas de couro, o Surdo tinha percorrido estrada. Foram mil quilômetros. De São Cristóvão, Sergipe, depois de ouvir falar nas riquezas do cacau, largou-se, um dia, para o sul baiano, a pé, com o primo Francisco, porque tinham muito pouco dinheiro que desejavam poupar para os primeiros meses na terra estranha. Plataforma, Feira de Santana, Jequié, Itabuna — meses de andança durante o dia, albergue durante as noites, qualquer lugar que desse pouso ou, então, no mato, uma rede estendida entre dois paus e, diziam eles, o urro da onça. No embornal a farinha que iam renovando pela estrada, nas feiras, a rapadura que ajuda a matar a fome e dá energia, e uns pedaços de carne seca, que às vezes comiam crua, atirando punhados de farinha na boca. Quando havia disposição, faziam fogo, cozinhavam. Bebiam água de regatos, no côncavo das mãos ou em folhas. E quando não encontravam água, no sertão seco, lambiam a umidade dos cactos e outras plantas espinhentas.

Os pés adquiriram consistência de cascos. Tinham a dureza dos pés dos cavalos e bois. Neles se cravavam espinhos que eram retirados à faca, com eles pisavam em cobras e pulavam para não ser picados; as unhas enegreciam, algumas partidas pelas pedras. O caminho era concreto, levava a um lugar, como todos os caminhos, ilusória seria a decisão de segui-lo até o fim. Por que ilusória? Só se iludem ao partir os que julgam finda a viagem. Não há chegada, nenhuma esperança substitui o ato de caminhar, as andanças não foram feitas para se chegar a determinado termo, porque, adiante e dos lados, estão os caminhos, outros caminhos, sempre caminhos — e, sobretudo, a vontade de caminhar para descobrir.

Destinos diferentes, os de José da Costa Guimarães e Francisco Guimarães Rocha. Este levava mais dinheiro, conseguiu comprar uma posse e plantar cacau. O Surdo dissipou logo os seus possuídos, porque mandou buscar os dois filhos em garupa de caminhão, e sobreviveu como carpina. Recebia encomendas de barcaças, estábulos, casas, cancelas, cochos de fermentação de cacau, armazéns. Para isso trouxera de São Cristóvão, cuidadosamente protegida com uma capa de couro, a machada que sabia manejar com um jogo de corpo faceiro e aparentemente incansável.

Era homem franzino, mas de músculos treinados. E Surdo, mas de olhos abertos.

Meu pai, o Surdo, costuma gritar que sou burro. Somos gente rude, costumamos comparar pessoas a animais, na intenção de ofender pessoas, mas ofendendo também os animais. Quando não grita, sei que ele pensa, só pela cara que faz — azeda e enrugada. Depois, cospe grosso e retoma a machada para lavrar a peça. Burro, eu? Sou besta de carga, sim, tenho talvez a força concentrada, o poder de vencer atoleiros e soltar coices. Sou robusto, saúde de ferro.

Ser burro, para o Surdo indica inabilidade, descuido, falta de jeito, incompetência. Não se questiona a inteligência, que neste particular nos emparelhamos todos. O Surdo só leva a palma às vezes porque vai buscar ciência nos almanaques, lê horóscopos, sabe o mês e o dia propício a determinados plantios, segundo o curso da lua. Também aprecia folhinhas — aquelas que trazem um bloco com os números dos dias do mês, que ele, com a solenidade de um padre a rezar missa, arranca todos os dias pela manhã. O papel tem para ele valor cabalístico. Vira-o pelo avesso e lê o pensamento impresso. Lê e relê, ajustando os óculos, franzindo a testa em sinal de concentração. Em seguida, olha para nós, que estamos a olhá-lo com uma certa avidez maldosa, e recita o provérbio, na esperança de que a semente medre em terreno fértil. Também gasta um dinheirinho com romances, folhetos de charadas e palavras cruzadas. Assim, enchendo-se com essas filosofias de almanaque, o Surdo apura o raciocínio, informa-se. O velho dicionário onde cata sinônimos e antônimos é o seu deus-nos-acuda contra o tédio, do contrário já teria corrido doido de tanto ouvir o silêncio, de tanto nos ver e em nós ver refletido o seu mudo desespero.

Mas ele me parece majestoso, sem a mesquinhez das suas contrações faciais, do cuspo grosso e dos gritos quando lavra um tronco em cima de um jirau, e nesses instantes, que se prolongam em horas e enchem um dia, eu o estimo do fundo do coração. Ou quando se levanta, imponente gajeiro, na cumeeira de uma casa que está a construir. Pousa então os pés nus, que são grandes e de veias azuladas, na madeira, curva-se e empunha a machada com a delicadeza de quem maneja um pincel ou um escopo. A machada, de larga lâmina afiada, uma guilhotina, desce rente ao pé e desbasta a madeira onde o Surdo quer, e na grossura que ele quer. Fascinante. De baixo, eu sigo os movimentos, aquele ir e vir ritmado do carpina, as aparas que s soltam com leveza de pluma — e sua lavratura é obra de arte acabada, parece que pelo cedro ou vinhático ou sapucaia passou uma plaina, jamais uma machada que o corpo arremessa. O Surdo não erra. A machada raspa o pé e corta a madeira. E se ele fizer um movimento falso, se enterrar o gume no pé ou na perna, em lugar banhado por tantas veias azuis, grossas como cordas? Eu, Jonas, que tenho a fortaleza e a teimosia dos burros de carga, a eles comparado nos momentos de ira do Surdo, fico a me tremer.

Um dia ele cortou o pé. Tinha de ser.

Foi no recesso de uma capoeira, enquanto lavrava um vinhático. Talho feio. Tinha começado a cair uma poeira d´água, e, de repente, a chuva engrossou. Do teto das árvores, que formavam rota cúpula, desciam fios de água clara e fria — goteiras que não demoraram a encharcar o chão de folhas. Os primeiros pingos, pesados e rombudos como pontas de picareta, surpreenderam o Surdo no gracioso meneio de baixar a machada suspensa acima de sua cabeça. De onde estava, a manejar a serra numa tora, vi que ele parecia petrificado em cima do vinhático — ele, a machada, os paus fincados que formavam o estaleiro a cinco metros de altura. Uma escultura, ou um instantâneo de máquina fotográfica. O Surdo não teve como deter por inteiro o movimento de rotação da cintura, que nele parecia azeitada, e o impulso que já dera aos braços, de modo que a machada faiscou no ar, lavada por uma água quase branca, de lua nova, foi travada e baixou no instante em que o pé do Surdo procurava se firmar. Eu vi o sangue espirrar como de um pejado tomate maduro. E ouvi o Surdo gemer "ai", em tom de pasmo, e um segundo depois:
— Jonas, você me acuda depressa!
Em dois saltos cheguei em cima a tempo de ampará-lo. Estava branco como um lençol.
— Um torniquete, rápido! — comandou.
Fiquei sem entender e ele, rasgando um pedaço da camisa, me passou o pano. Fiz um chumaço sobre a ferida, usando folhas, e amarrei o pé, com força, dois centímetros atrás do corte. Então eu e o Surdo descemos agarrados a um dos paus enquanto a chuva, em crescendo, rumorejava nos matos e formava poças. Meti o Surdo no ombro, larguei machada e serra e fomos pra casa. O trote me fez resvalar na lama —mais visguenta do que limo — e cair duas vezes antes de entrar em casa com a alma a querer escapar pela boca. Ele não era pesado. Era pequeno, o Surdo meu pai, e agora, sobre o meu ombro, parecia menor e menos pesado, tinha o tamanho e o peso de uma jaca dura que não espinhava, como se já liberto em parte do seu poder de ralar, espetar, ferir.

— É preciso estancar o sangue! — gritou com toda a sua raiva.
— Eu sei. Regina!
Veio o mastruço arrancado num canto da cerca. O sangue, agora mais grosso e mais escuro, empapava tudo, o mastruço pisado e os panos limpos, e o Surdo, muito branco, perdida então a sua tez de índio, foi levado às carreiras pra Itabuna em lombo de cavalo esquipador.

Costuraram a veia cortada, pensaram o talho que, limpo de sangue, absorvido nos chumaços de algodão, mas logo repontando qual veio de veia farta, me pareceu um corte reto e fundo entre duas bochechas — uma vagina de mulher, para ser mais exato. Havia pêlos ao redor, pêlos negros e retorcidos, e o talho, no fundo, tinha, quando limpo, uma carnação rósea. Vagina de mulher.

Um mês para sarar por completo. Os curativos eram diários, o Surdo dormia como pé ferido sobre um travesseiro, envolto em grossas ataduras, que era "pra não magoar o ferimento", segundo dizia. — Você me salvou, Jonas. — Esqueça, velho — eu gritei.

— Sem você ali eu estava perdido. Teria me esvaído em sangue — comentou.

— Esqueça, velho.

— Sabe quantos litros de sangue um homem pode perder sem risco iminente de vida? — perguntou.

Eu não sabia e ele próprio, atrapalhado, hesitava entre um e dois. Deve ter lido num dos seus almanaques que tem ou devia ter de cor, guardados na gaveta, por ordem de sua edição anual, como tesouros, eu pensei. E enquanto o Surdo sarava e a machada criava ferrugem no gume afiadíssimo, serrei tábuas, centenas de tábuas pra garantir o sustento da casa.

E fiz sozinho o saco em Ferradas.

3
(O Surdo)

O céu parece uma aguada sem fim em que as nuvens negras são charcos, atoleiros imensos. A chuva começa a cair sobre a terra em baques fofos, anunciadores, e depois em baques surdos que ressoam como tiros de espingarda. O assalto dura um dia, às vezes uma semana inteira. A luz viva se embaça, como a de candeeiros com pouco querosene, mais fumarentos que iluminadores. Por mais úmidos que sejam estes vales e elevações, a terra, custa a ressecar, pede chuva, clama por chuva no coaxar dos sapos. Pensando bem, a terra é indiferente à água, por sua vontade ela pode até virar poeira e pedra, mas o que nela está plantado, primeiro pela mata imemorial, depois pela mão do homem, pede chuva. O cacau está sempre a olhar para o céu, a estudar mudanças de ventos e de umidade, trânsito de nuvens ou funduras de azul que chega a doer na vista. Estende para cima seus braços, o cacaueiro, e suplica, talvez reze. Precisa de chuva para espocar em flores arroxeadas, apressar a polinização pelas moscas e rebentar, por fim, em frutos minúsculos — os bilros do seu tear atlântico.
Aquela pancada d´água que me apanhou de surpresa na capoeira, de machada no ar, pronto para mais um desbaste, durou dias, primeiro como que despejada do alto, depois mais mansa, com pés de lã que saltitavam sobre a terra enquanto um baço palor a transformava em névoa e encobria bichos e plantações mais rasteiros. Então um lençol envolvia tudo, ora tangido pelo vento que assoviava, ora estático, como a resguardar corpos feridos. Ribeirões reduzidos a filetes, ou então estagnados entre ribanceiras de mato, com aquela coloração verde das correntes doentias, bebiam, inchavam e alargavam o leito.
Haverá ânsia mais premente que a de chuva?, pensava o Surdo, a caminhar. As alpercatas curvam-se em forma de pequenas canoas, ele parece singrar sobre a água retida nas poças dos caminhos. Há muito tempo não entrava num bosque fechado de cacaueiros. Tempo fazia também que não ia à missa na igreja de Ferradas. Tanto lá quanto aqui, principalmente aqui, o Surdo tinha a impressão de avançar pela nave de uma igreja majestosa, uma catedral iluminada por archotes de luz amarelada, que eram, por todos os lados, e, até onde alcançava a vista, os frutos amadurecidos. Outros castiçais, numerosos, esperavam que alguém os espevitasse ou acendesse — os frutos verdes. Para o Surdo só havia silêncio, um silêncio que, de tão calmante, equivalia ao não-ser. Estendia os olhos, via apenas troncos enfileirados — um exército ou uma falange aspergidos pelo turíbulo das jacas, cajás, tangerinas, bananas maduras, laranjas d´água, limões rachados, abacaxis de avermelhadas chagas, frutas-de-conde e outros incensórios terrestres. A caminho da casa de sua comadre Raquel, o Surdo percorria uma nave iluminada, seus olhos se enchiam com o pão consagrado a pender dos troncos, as narinas inflavam para recolher os odores que vinham de um altar dos santos óleos, e, não fosse ele surdo, ouviria o coro gregoriano dos que tinham penado na enxada, na foice e no machado, em troca de um prato de jabá com farinha, quando comiam bem, ou de tripas com farinha, quando comiam para não morrer.
Se sentia purificado. Engolia, no vento brando, as hóstias dos que, tendo plantado, iam colher a mistura de suor, sangue e vinho que se fazem carne. Chuviscava agora. Salpicos de água lhe escorriam pelo pescoço, por baixo da camisa grossa. E os riachos, enfartados, eram estações de lava-pés. O Surdo não tinha cacau, vinha de uma terra seca, onde chovia, no máximo, duas vezes por ano, e sem as trovoadas que alagam. Ainda assim, desejava mais chuva. O maciço de árvores e os bosques quase ininterruptos pareciam atendê-lo, desfraldando vapores que se transformariam, em cima, em novas nuvens de chuva, porque, na sua instintiva sabedoria, tinham a certeza de que na natureza tudo se acaba, tudo se transforma — ou se desertifica para sempre em mundos mortos.


.
A cancela bate. É um baque fofo. O mourão está apodrecendo, pensa o Surdo. Da casa com varandas, estilo colonial português, ouvem a pancada. Não preciso chegar e bater palmas e gritar :”Ó de casa!” para que me respondam, certamente, “ó de fora!” É só me chegar. E atravesso o pasto, agora já distingo pessoas na varanda da frente.
— Mas é o Surdo — admira-se Tranqüilino.
— Ele mesmo — confirma comadre Raquel.
— Já curou o pé? Dizem que o talho foi fundo, cortou uma veia.
— Deve estar cicatrizado. Já passou um mês.
Imagino que se admirem de me ver tão cedo. De que o talho, já bem fechado, me permita andar por dentro de plantações, em visita a vizinhos. E sozinho. Se um jaracuçu me picar, se eu tropeçar e bater a cabeça numa pedra, se enfiar o pé num buraco e abrir a ferida? Com certeza pensam nisso, conversam a respeito. Subo os degraus largos da escada. Me aguardam em cima, Tranqüilino e comadre Raquel — e no meio o cão a sacudir a cauda. Dão-me, pois, as boas-vindas.
Com esses não preciso me esforçar. Leio o que os lábios esboçam — e, se não consigo ler, então suponho. É como um jogo: eu digo, eles dizem, eu imagino que dizem, dentro da lógica, e para ter certeza, confirmo com uma pergunta. Assim nos entendemos. É fácil, especialmente com a comadre Raquel, que parece ler nos meus olhos, na minha cara, enquanto eu leio na sua boca.
— E então, compadre?
— Já estou bom.
— Cicatrizou?
— Completamente. Olhe aqui.
Arregaço a calça, mostro o risco do talho da machada na perna.
— Talho longo — diz Tranqüilino. E abre a mão para medir.
— Largo e fundo — digo eu.
— Perdeu muito sangue, compadre?
— Um bocado. Quase desmaiei.
— Felizmente Jonas estava lá.
— Sim, ele me salvou.
— Nessas coisas costuma ser ligeiro.
— Mas pensa devagar — eu menosprezo. — É preciso que se diga o que fazer. Então ele acorda e acode.
— Ele é um bom menino — diz a comadre. — Cresceu ligeiro, botou corpo e ainda não apurou a mente. Tenha paciência, compadre.
— Paciência é o que não me falta. Jonas é atirado, é meio doido. Se eu largar de mão, faz besteira grossa.
Devo ter enrugado a testa, ou coçado a têmpora, porque eles fazem uma pausa. Continuo:
— Tenho medo dele.
A confissão brota sem eu querer. Eu ia dizer uma coisa e saiu outra. A comadre me fita com uma curiosidade em que noto também apreensão. Tranqüilino ouve a conversa sem me meter.
— Medo? O compadre tem medo?
— Às vezes tenho.
— Medo de quê? De que ele lhe bata?
— Pode ser. Uma ocasião, Jonas avançou contra mim — e eu me vi, pequeno, nas unhas de um gigante. Parou a tempo. Ficamos a nos olhar. E eu, para quebrar o gelo, lembrei: “Sou seu pai."
— E ele, o que fez?
— Me respeitou. Mas cuspiu, com um certo nojo: “Você é o Surdo”.
— O apelido pegou — disse Tranqüilino. — Até os seus filhos…
— São filhos criados sem mãe — eu digo. — Faço o que posso, solto e encurto as rédeas, conforme as necessidades. Mas eles se sentem livres, quase desobrigados de mim, entendem?
— São rapaziadas — diz Tranqüilino, com um chupão no cigarro.
— Cabeça quente de moça que não casou — diz a comadre.
Outra pausa. Olhamos sem ver o gado no pasto, os trabalhadores que entram com cacau mole para os cochos. Tranqüilino se levanta para ver. Cacau exige presença do dono, nas roças, na quebra, na fermentação, na secagem.
— Pois é como lhe digo — eu reato a conversa. — O Jonas…
— Não creio que ele lhe faça mal.
— Talvez não se atreva, talvez me respeite no último minuto. Mas eu lhe pergunto: e com os outros, será capaz de se domar?
— Ele tem feito arruaças, compadre?
— Não do meu conhecimento. Mas é bruto, entende a senhora? É bruto.
Novamente as rugas na testa, o rosto que se contrai como fruta ao sol.
— É valente, ou metido a valente. Confia no corpo, naqueles braços e no peito possante. Um dia faz besteira.
Devo estar mordido, porque me levanto, me encosto na balaustrada.
— Vou lhe buscar um café — oferece a comadre.
— Só se estiver coado, comadre.
— Está quente, no bule. É só servir.
Entra. Fico a ver os homens descarregarem os burros com os caçuás socados de cacau mole. O cheiro forte chega até onde estou. Outra carga chega, tangida por um menino, atravessa o ribeirão, esparrama água e lama.
Comadre Raquel volta com o café fumegando.
— Está no ponto.
— Pelando. É como eu gosto, porque me obriga a sorver, e, assim, apreciar melhor. E a senhora, não bebe?
— Só de manhã, com a talhada de cuscuz e mingau de puba. Durante o dia me dá dor de cabeça. De noite me espanta o sono. Mas compadre, me dê notícias de Regina.
Faço o gesto de estirar os beiços.
— Em casa.
— Isso eu sei. Alegre, feliz?
— Ela nunca foi alegre. É calada, resmunga pelos cantos. É sonsa. É preguiçosa. Come demais. Come que se acaba.
— Valei-me! Por que come tanto?
— Coisas de mulher, comadre. Agonias, ânsias.
— Ela precisava casar.
— Com quem?
Ficamos os dois a pensar: difícil casar a Regina. Só se ela quiser se rebaixar, aceitar trabalhador errante, cachaceiro e com a roupa do corpo. Entre os proprietários, qual o moço que olharia para ela? Olha uma vez e pronto: a brancura, a banha no peito e no ventre, os braços roliços, as pernas que parecem quartos de porco — esta é a Regina que a finada Ildefonsa pariu e aleitou. Criada sem mãe, sem cuidados, no mundo rude dos homens, o que ela faz com gosto é xingar. Olho por cima do corrimão: Tranqüilino vem subindo do armazém e dos cochos, com certeza faz cálculos sobre a pesagem do cacau seco, a cotação, o número de arrobas do cacau mole. Mudo de assunto.
— E Ana?
— Ana, a minha negra? Por que o compadre pergunta?
— Só por perguntar.
— Está na cozinha. Cada dia mais lerda.
— Mas ela cozinha bem, não e? Limpa a casa direito, pelo que me disseram.
— Está interessado nela, compadre? — a comadre pergunta com um brilho maldoso nos olhos.
Não respondo. Sou surdo, nas minhas conversas penosas com os outros tenho de adivinhar, de perguntar e ao mesmo tempo prever as respostas. Dizem que leio no movimento dos lábios quando soltam as palavras, mas leio também na mente. Sei o que comadre Raquel está pensando na sua malícia de mulher: que eu, viúvo de Ildefonsa há anos, estou precisado de encosto para não ser devorado pela solidão, pelo pinicar da carne, E que, para esse mister até Ana, a negra da sua cozinha, me serve.
Antes de me despedir, a comadre pergunta se Jonas continua apaixonado por Celina. Encolho os ombros, irritado. Não sei, não sei. Não me interessa. Esgotei o meu saco de conselhos, de avisos. Ele que cobre juízo, se não quiser passar pelo pior. Pego o chapéu de palha que me protege do sol.

4
(Regina)

Eu, Regina, sei: há momentos em que Celina tem vontade de rasgar as roupas e correr nua pelos campos, pelos bosques. Como uma daquelas deusas pagãs que vi na enciclopédia da escola, de redondos seios e ventre torneado. Geralmente estão a caminho da fonte, porque levam um cântaro. Umas, certamente de outra casta, tangem liras.
Alguma coisa se revolta dentro de Celina, em baixo, nas imediações das suas virilhas. Um bolo se parte. É esta a sensação: um bolo se desprende e começa a subir. E quanto mais sobe, como uma bolha de ar quente, mais a vai sufocando, a garganta se estreita e o bolo fica entalado sobre o coração, que dispara. Um suor lhe cobre a pele do rosto, das mãos, do pescoço. E Celina, asfixiada, quer se ver livre de tudo, menos do seu corpo, e correr.
Uma agonia dessas pede movimentos. Celina corre ao balaústre e dilata as narinas, como fazem os cavalos, para apanhar golfadas de ar que não lhe trazem sossego. Sai para o estábulo, tem o impulso de roçar-se nas estacas, de sentir na sua pele arrepiada a aspereza da pele dos cavalos. Alguns dobram o pescoço para vê-la chegar. Têm os sexos murchos, recolhidos — mas Celina, em várias ocasiões, já os viu levantados e tesos.
Vai até a estrada, volta. Eu vejo na imaginação. Celina pensa no olho-d´água e vai esfriar o ardor das mãos, a quentura no rosto, o incêndio que lhe percorre os seios, e o ventre e as coxas. A água fria, de minador, lhe devolve a paz, em curta trégua logo quebrada por novo desprendimento do bolo que sobe e olhe fecha a garganta, como um garrote vil.
Anos antes, a tia Jasmim, que então morava com a família dos Castro Guerra, contou que viu Celina naqueles transes, vexada, intumescida de dores, e lhe disse:
— Baixe o fogo, menina.
Celina enrubesceu.
— Quando uma moça chega a esse ponto, só tem um jeito.
Celina parou pra ouvir.
— Tome um banho de água bem fria. De imersão. A água faz baixar o fogo. Mas o melhor mesmo é arranjar noivo, casar o mais depressa possível, parir.
Celina pensava em Jonas e na oposição da família.O pai, que costumava decidir em nome de todos e sem consultar ninguém, já tinha reservado Celina pro filho de um primo que estudava Direito no Rio de Janeiro e seria uma personalidade, um político talvez, com poder de voto e de mando. Nas suas próximas férias o rapaz passaria uns dias na fazenda, a pretexto de descansar. Convite feito e aceito.
O bolo, aquela ânsia que subia dos fundos de Celina como uma água-viva, lhe sufocava os peitos de tal maneira que ela já rompera, no cume da agonia, as alças de dois sutiãs — e eles saltaram como se fossem bolas de borracha. Agora, francamente, não sabia o que fazer. Talvez o banho recomendado pela tia. Pega uma bacia e um caneco e toma o caminho da fonte em que lavavam roupa, atrás da casa, num covoado protegido da pastagem por uma moita densa de bambus e capim alto. Eu não vi, mas eu sei.
Na frente, um anteparo de folhas trançadas de palmeira, com porta e taramela. Nos lados e no fundo, o bambuzal e o capim da pastagem que, viçoso e muito verde, invadia a plantação.Celina se fecha. Um vento brando sopra, troncos de embaúbas se roçam com um ruído áspero, talos de capim emergem, grossos como canas, da massa verde. Faz calor, a natureza em volta está quieta, como que à espera de uma penetração. A tábua de lavar roupa, com uma ponta mergulhada na água, guarda vestígios de sabão da última lavagem. De súbito aquietada, já se sentindo nua diante do espelho d´água, Celina gosta de se ver refletida numa imagem trêmula. Bicha vaidosa... Folhas secas e insetos caem, borrando-lhe a imagem do rosto longo e branco, de olhos negros e boca ávida. Em vez de correr para as margens, os círculos de água correm todos para Celina e lhe abraçam as coxas, morrem nas suas coxas.
Ela se despe devagar. Sujeita mais vaidosa! Em cima da tábua, alonga os braços, curva o pescoço, pula para sentir o peso dos seios que parecem inchados. E somente depois desses preparativos, que faz sem saber porque, é que entra na água e se agacha. A cadela, a égua que se espoja!
A água lhe sobe pelas pernas, lhe arrodeia as coxas, lhe esfria o ardor que jorra como lava do vulcão do sexo,lhe cinge o dorso. Sentada, então, no leito da fonte, com a água a chegar-lhe ao pescoço, Celina vê que os seios perdem o peso e parecem boiar. Sente um arrepio de gozo seguido de trégua que promete ser longa.
Ela não sabe, ah, sela não sabe que, dentro da moita de bambus, escondido entre os caules e as touceiras de capim, Jonas espia. O rumor que se ouve não é do alvoroço das cigarras nem das marteladas dos sapos do entardecer. É o martelo do coração de Jonas. Bate surdo, retumba.

O besta do Jonas pensa que me engana. Eu sei, eu vejo. Posso estar confinada nesta cozinha, para eles machos o lugar da mulher, mas, daqui, tenho o meu ponto de vista. Pra onde vai o meu irmão querido a esta hora de domingo? Fazer o quê? Perguntei com o meu jeito sonso e ele falou em colher tangerinas maduras. Saiu com um saco de aniagem, pra disfarçar. Tomou o rumo do Ribeirão dos Cachorros, mas sei que, na fonte das taiobeiras, deu volta ao morro, entrou no mato e saiu no caminho para as Quatro Léguas. Sei porque larguei esses trastes que me lascam as unhas e fui atrás, me escondendo, a distância segura. No meio da ladeira, na moita de catolés, me agachei e apurei a vista: o vulto de Jonas contornou as taiobeiras, como eu esperava, e seguiu pelo sopé do morro. Está bem. Não preciso ir nas pegadas do descarado porque sei, estou vendo agora mesmo que ele abre uma picada nos matos e toma o caminho da casa de Celina. Espere só, assanhado, um belo dia o Castro Guerra pai há de lhe pegar de jeito. Tem capataz, tem trabalhadores ajagunçados, tem dois filhos homens, tem sangue na goela e cabelo na venta, o poderoso. E quando pegar, porque vai pegar, terei pena de Jonas. Matar não matam, que os tempos de mortes impunes datam da conquista da terra, da guerra do Sequeiro. Mas, se não matam, então aleijam. Cortam de facão. Furam de punhal pra meter medo. Talvez capem. Já vi capar porcos: dão um talho com faquinha afiada e esvaziam os bagos. Os capados engordam e afinam a voz. O grunhido do porco capado parece flauta, o canto do frango capão é puro falsete. Jonas, Jonas, eu avisei: não bula com o que não nasceu pro seu bico. Deixe a filha do Castro Guerra dar o rabo a quem quiser — e depois enganar algum trouxa, entrando com ele na igreja de véu e grinalda.
Descobri nacos de carne crua no bolso da camisa de Jonas. Ele furta da cozinha pros cachorros das Quatro Léguas. Amansou os bichos com a maior das doçuras — primeiro, com o estalar de dedos e a voz amigueira; depois, com a tentação da carne. Satanás, o pior, foi o primeiro a não latir mais para Jonas nem acuá-lo; hoje, sacode a cauda na maior das festas. Aqui, bichão, aqui, bichão — cochicha Jonas, abaixando-se, o naco de carne vermelha na palma da mão. Assim amestrou os três cães de raça, Satanás, Ferrabrás e Bruxa, tão altos quanto um bezerro e com um corpo fulvo de leão. Tudo isso por amor de moça raparigueira. Amor? Então aquela cadela gosta de ninguém? Está é em época de cio, azeda, a se espojar, capaz de andar se esfregando em árvores rugosas ou em cavalos, quanto mais em raça de homens. Mas ela se pela de medo dos irmãos e do pai.
Também dizem que Celina está prometida pelo pai a um moço rico. Pior ainda: vingança líquida e certa. Ah, meu irmão, me poupe de ver você murcho pelos cantos, de cócoras, gordo como uma paca, a nos falar com voz e requebros de homem-mulher. Falei aquilo só pra lhe prevenir, porque, por menos que a gente se goste, e por mais que a gente se maltrate, resta sempre uma brecha por onde se infiltra a ternura. Fiquei pasma aquela tarde quando, sobre os meus pés nus, quase sem fazer ruído, porque havia chovido e as folhas secas do caminho não estralavam, topei vocês dois, assim de inopino, e tão entretidos que nem deram por mim — e assim não precisei me esconder. Você tinha as mãos de Celina entre as suas. Num gesto de cavalheiro de cabelo empoado, calções, polainas e sapatos de fivela dourada, você levantou a mão esquerda de Celina, em gesto de salão, e beijou-a de leve, mal roçando os lábios — e ela sorriu. E assim ficaram, juntos, rindo — e você quis lhe dar um beijo de verdade, na boca, mas Celina, assustada, ouviu um cão ladrar perto, soltou-se e saltou sobre um tronco, na corrida para casa. Tive vergonha que me vissem, me escondi atrás de uma moita de bananeiras-bravas. E enquanto você, parado, cheirava a mão, como querendo reter o odor de Celina — se não algum perfume caro, pelo menos o cheiro forte de fêmea no limiar da desvirginização —, eu pensava: ele é o virtuoso herói-cavalheiro que namora a Princesa Magalona. Está num folheto que o Surdo trouxe da feira e que de vez em quando relê. Há também uma história de José do Telhado, ladrão fino que houve em Lisboa, ladrão de dinheiro e objetos, nunca ladrão de moças. E então, Jonas? Homem que pega na mão logo quer o pé — e a boca e o mais que se segue na escala das ousadias. Eis o perigo, você impulsivo e impetuoso, com o sangue de sertanejos famintos, e ela no cio que acomete donzelas por pensamentos — mas que às vezes enxota o pensamento e parte para as ações.
Achei você elegante, bonito até, no meio dos cacaueiros, a se curvar de modo faceiro para uma donzela — que ainda deve ser por obra de uma membrana de fácil ruptura — e lhe plantar um beijo na mão. Lindo. Assim é que deviam tratar sempre as mulheres, só as que prestam, porque para as outras, as falsas, existem os puteiros. Mas quando, em casa, vi você agachado no terreiro, enquanto o Surdo rachava lenha, você ensimesmado a esgaravatar o chão com um graveto, me danei de novo: era o Jonas de sempre, o que pouco vale, o que freqüenta casa de putas em Ferradas. Então eu gritei também:
— Quero água. Uma lata, ouviu?
Escurecia — e o descarado a esgaravatar o chão com um graveto. Procurando formigas, siô Zé Mané dos Anzóis Pereira?

5
(Jonas)


Mal a noite se inaugura, eles apagam as luzes. Economia de querosene e também o sono que bate cedo e derruba os corpos. Mal a noite desdobra o seu crepe negro, os viventes entram a bocejar. Alguns resistem ao sono em conversas entrecortadas por bocejos, nos balaústres e alpendres, à luz de candeeiros fortes. A chama há de estar protegida por um tubo de vidro fino, do contrário o vento que de quando em quando sopra, inclina e apaga a lâmpada, deixando em seu lugar um odor acre de azeite e um rastro de fumaça. Insetos voejam atraídos pela luz, queimam as asas e caem. O chão de cimento ou tabuado se vai pontilhando de corpos minúsculos que ainda se mexem. Grandes mariposas de asas negras revoluteiam. Uma a uma as luzes se apagam, umas pelo sopro dos moradores no bocal, outras extintas pelo vento, outras ainda porque, esquecidas, queimam o óleo todo. Fica a luz trevosa das estrelas, se há céu constelado, ou da lua, se é fase de plenilúnio.
Desce a noite por completo, ainda cedo, e as pessoas desabam mais do que se deitam nas camas, até ali arrastadas por pés de chumbo, os olhos a se fecharem pelo peso redobrado das pálpebras. Meninos que adormeceram à mesa ou sentados na boca do pilão, a ler enredos de aventuras, são carregados pelos pais e postos nas camas, onde o alvorecer reatará o fio das suas emoções. Cães ganem. Janelas são fechadas e travadas. Portas recebem, além das chaves, o reforço das taramelas. A partir da meia noite, galos começam a cantar.
É o canto dos galos, mais que as distantes luzes apagadas, a prova de dispersa vida humana no Vale e nos altos. Os viventes se comunicam entre si, estabelecem um cordão de segurança e solidariedade. Pelo timbre do canto, mais alto ou mais baixo, sabe-se de onde vem, identifica-se a casa. E todos se sentem mais próximos. Os galos imitam os apitos dos guardas noturnos numa cidade adormecida. São os vigilantes da noite, os postos avançados de uma vigília que reduz o medo. Mais perto, nos oitões das casas, ficam os cães. Passam a noite sem comer, para vigiar melhor, soltam ganidos quando se coçam e latem às vezes sem razão, por causa de um simples rato.
Os galos aconchegam os viventes, os cães os advertem.
Mas há poucos animais na noite. O mais assíduo é a raposa que ronda os galinheiros. Ou a cobra que procura conforto em noites frias, enroscando-se nas cumeeiras. Ladrões só se arriscam sem a bulha de cachorros. O bicho mais temido ainda é o homem.
Jonas é um dos animais da noite.

Comprei uma lanterna de pilha em Ferradas. É curta e cabe no bolso. Espero a casa dormir. Primeiro, tenho de ouvir o ressonar de Regina, que é mais moça e dorme mais cedo e pesado, depois aguardo o ressonar do Surdo. Ele se remexe na cama, se vira para um lado, para outro, pigarreia, tosse, às vezes fala sozinho. Tem pesadelos, grita “não”! “Não”! Gritos sufocados. De quando em quando se levanta e abre a porta para urinar no capim. Por fim, volta a pegar no sono. Pois é, antes de sair, com o meu facão e a lanterna, verifico se estão todos dormindo. Tenho medo dos fingimentos de Regina, ela uma sonsa de marca maior. Pensa que eu não percebo, mas vistoria a minha roupa, calça e camisa, à procura de novidades. Em lugar de bilhetinhos, recibos e anotações de dívidas, encontra a carteira de mortalhas, o naco de fumo, a quicé. E só. Sou doido pra guardar papéis que me culpem? Sei que ela me vigia em casa e nos matos. Está sempre dissimulada em algum lugar, pra me ver sair, saber em que direção sigo e tirar suas conclusões — ou, quem sabe, por outros caminhos e atalhos, me alcançar adiante, ver o que faço, com quem estou, o que converso, as façanhas que por acaso pratico.
Regina já deve saber que eu saio para a noite. Enquanto esse punhal, o punhal do amor, estiver fincado no meu peito, a cortar carnes, eu serei da noite, como os morcegos, as corujas e as cobras. Vou nos meus sapatos de lona pra pisar macio. Se há lua, uma cortina leitosa desobscurece árvores e objetos, transformando-os em seres bizarros. Os caminhos parecem palmilhados pela primeira vez, buracos e raízes são armadilhas onde posso tropeçar. Acesa nos lugares mais escuros, e com o seu foco de luz reduzido, a lanterna é mais um fogo-fátuo dentro da noite, ou então uma das luzes, a última, que se acende e se apaga na escuridão. Os cães me conhecem. Os de perto sentem os meus passos e se erguem, a cauda retesada, as orelhas em pé. Então rosnam. Vou me aproximando, lento, a bater os dedos. Chamo-os pelos nomes e então se acalmam. Dou-lhes tiras de carne seca, que engolem e depois se põem a me olhar de olhos vidrados, e a saltar sobre mim, na esperança de novo bocado. Mas há outros cães adiantes — e mais ferozes. Os da casa de Castro Guerra, por exemplo. Dormem soltos, sob a escada, prontos a saltar sobre o primeiro vulto que entrar no terreiro. Em geral eu me aproximo pelos fundos, tenho um assovio baixo que já treinei com eles. Vejo que se levantam, se sacodem e seus olhos fuzilam na noite. Já me identificaram, são cães de raça, finos nas suas percepções, desses que não fazem algazarra porque, primeiro, fincam os dentes. Ferrabrás, eu chamo baixinho. Satanás, eu cochicho nas trevas. Eles avançam pra mim num bamboleio de urso, esfregam os focinhos úmidos nas minhas mãos e recebem umas lascas de carne.
Aqui dorme a minha amada. É esta a janela do seu quarto. As folhas de uma goiabeira batem ramos compridos na madeira, como se tivessem percebido a minha chegada e acorressem a despertá-la. Às vezes fico ali uma, duas horas, e tenho a impressão de ouvir o leve ressonar de Celina. Seus cabelos se espalham no travesseiro, seu rosto está calmo, ela sonha, talvez. Comigo? Entrarei nos seus sonhos? E, se entrar, serão sonhos coloridos — eu e ela bem vestidos, numa tarde de maio, a andar pela borda de um lago, enquanto ela roda o cabo de uma sombrinha japonesa nas mãos e bamboleia os quadris? Eu sou o conde Jonas d´Orléans, ela é a princesa Celina Beauchamp, e estamos apaixonados, e ninguém vai nos separar, o pai cruel será vencido pelas maquinações do cardeal que preza nossos amores. Estou de pé, junto a um tronco, pra não ser revelado em cheio pela claridade da lua quando esta emergir de um amontoado de nuvens negras. Certas noites, Celina não dorme. Talvez me tenha pressentido, talvez deseje, pela janela, alongar o olhar no mar oleoso da noite até a minha casa, e buscar assim um contato. Devagar, ela abre a janela, apenas uma banda. Vejo o seu vulto branco surgir, debruçar-se no peitoril, sondar a noite. Não parece me ver, a princípio. Então eu me destaco do tronco da árvore e me apresento em cheio, ela leva a mão à boca pra abafar um grito e eu sussurro: “amor, amor, amor”. Ela põe a outra mão sobre a boca, é forte a tentação de querer me falar. Ficamos a nos olhar. Eu preciso voltar e me sinto pregado ao chão. Ela corre o risco de ser descoberta por Zefa ou um dos irmãos que, desconfiado, vá ter ao seu quarto. No entanto, o amor e o medo, uma mistura dos dois, nos põe ali, mudos, paralisados enquanto a noite avança. Aves se mexem no poleiro, o primeiro galo não tardará a cantar, depois de um ruflar de asas. Numa dessas noites Celina me soprou um beijo com a ponta dos dedos, eu o recolhi e logo o levei à boca. Ela gostou e riu. Vi que gostou e riu. Depois, como se assustada por algum ruído dentro da casa, faz um aceno com a mão, me despedindo. Que eu vá embora, que eu vá embora, depressa! E fecha a janela, devagar. Mas não fecha de todo. Deixa uma pequena fresta por onde ainda me olhar, e de onde estou vejo o seu busto meio descoberto subir e descer nas vagas da emoção. Abre mais a janela e faz um gesto peremptório. Desta vez Celina se recolhe e duvido que durma logo, com certeza pensa em mim, os cabelos esparramados no travesseiro, uma ânsia a lhe fazer subir o peito. Espero um pouco. De repente, estremeço da cabeça aos pés: um galo se levantou no pau do poleiro, bateu as asas e cantou — e outros galos das vizinhanças começaram a responder, uns mais roucos, outros mais claros, mas a mistura de vozes soa como clarinada. A lua vai no meio do céu. Retrocedo de costas, entro na sombra mais fechada dos cacauais, boa noite, Celina, sonhe comigo, querida, já que não pode dormir comigo.
Enquanto avança cautelosamente, e mesmo assim leva no rosto lapadas de ramos molhados, Jonas pensa, com raiva: “Uma noite dessas, quando estiver bem doido, juro que escalo a janela. Não é este um meio dos mais conhecidos nos romances de amor insatisfeito? O problema é a parede lisa e alta, sem nada em que apoiar os pés. Ah, já sei: puxo uma escada ou um cavalete do depósito pra chegar ao peitoril. E depois bato umas pancadinhas de leve na janela. Terei de tapar-lhe a boca com a mão pra que ela não grite de susto e acorde as feras. Avisar não vale a pena: ela não deixaria. Mulheres nunca aceitam. Mulheres querem ser tomadas de supetão Sempre dizem não quando ardem pra dizer sim. Não é o que está escrito nas novelas românticas que o Surdo lê,.segundo diz, pra adquirir vocabulário, pra aprender a pensar?

6
(O Surdo)

Os caminhos são de todos. Podem ter no meio uma cancela, um atoleiro, uma casa-sede, um pomar, um cemitério. Não importa, são de todos, e quem aqui vive, nesses altos e baixos, sabe onde eles começam e onde vão dar, como se interrompem e se reiniciam. É uma encruzilhada de caminhos, uns mais fundos, porque calcados pelos cascos das tropas e das botas ferradas, outros apenas um leve riscado, palmilhados que são pelos não-cavaleiros. Caminhos reais, caminhos secundários, eles formam um aranzel, um labirinto: entra-se e é difícil sair, porque, no final das contas, eles acabam por nos devolver ao círculo central onde rodamos como perus entontecidos. A não ser que se queira tomar a estrada real. Esta é diferente, esta se dirige para fora das pessoas e dos seus circunlóquios.
Quando não tem o que fazer, ou melhor, quando lhe falta trabalho, ou então nos domingos, o Surdo percorre alguns desses caminhos que o devolvem a si mesmo, ao seu enfurecido tropel interior. Ele entra no labirinto sem vontade de sair, deseja apenas retornar ao ponto de partida. Não é herói, não pretende matar nenhum touro mitológico e dispensa fios condutores providenciados por alguém — uma mulher — que não deseja perdê-lo. O Surdo sabe como voltar e quer voltar. Está sempre de volta ao seu vulto sentado na escada, a olhar a tarde se ensangüentar em crepúsculos, ao seu vulto sentado na escrivaninha, a repassar páginas de antigas brochuras — livros teosóficos, almanaques com instruções para plantar e colher, que ele, por não ser agricultor de verdade, repassa aos amigos e conhecidos, manuais de antiga medicina chinesa. Ao seu vulto na cama larga, sem nada a que se agarrar, salvo o lençol, e com algumas teias de aranha no teto — não vá uma delas desprender-se da teia e cair-lhe em cima. Aos filhos Regina e Jonas, silenciosos como pedras. Aos afazeres, enfim, do seu  sítio, onde é preciso cuidar, nas horas vagas, das leiras de verduras, apanhar água na fonte, rachar lenha trazida de velhas queimadas.
 Volta-se, em geral, para o que se é, para o que se deixou atrás, como a pele que a cobra larga.
 Dias sem trabalho custam a passar. O mostruário das horas, quando não é visto ou acompanhado de perto, em consultas freqüentes, estira-se como a cascavel que se desenrosca toda — e tem um veneno oculto, que é o da lentidão, o da pasmaceira de pântano, o da preguiça-de-coleira agarrada ao tronco até que um caçador a desprenda e leve. Enquanto caminha pelos matos e bosques cultivados, por secos ou enlameados caminhos, por atalhos invisíveis que somente poucos conhecem, o Surdo olha e monologa. É um solitário homem a andar, mas quem anda deseja, no fundo, se comunicar, quer pelo menos um dedo de prosa, já que a mão é mais difícil de obter, principalmente das mulheres. Quem anda quer encontros, ou se arrisca a tê-los, com anjos ou demônios.
Eis que na curva surgem três cavalheiros, nenhum de chapéu na mão — e um deles, o da frente, gordo e corado, com uma taca na mão em vez  do chapéu, culote cáqui, botas de cano alto e chapelão de feltro enterrado na cabeça, é o coronel Castro Guerra. As patas do seu alazão espadanam água e parecem navalhas: cortam a lama em fatias e as atiram para o lado, em movimentos ritmados, quais escavadeiras. O senhor, o dono da Quatro Léguas.

 

Castro Guerra refreia o cavalo, que se empina ligeiramente, e levanta a mão, em sinal para que os dois filhos parem. Desce num trecho seco do caminho, amarra as rédeas num arbusto e encara o Surdo.

— Fazendo o quê por aqui?
— pergunta.
— Boa tarde — diz o Surdo.
— Fazendo o quê nas minhas bandas?
— Boa tarde, senhores — diz o Surdo aos rapazes taludos que o olham do alto das selas.
— Responda! — grita o coronel.
— O homem é surdo, pai — diz um dos moços.
— O senhor tem de gritar no ouvido dele, colando a boca — avisa o outro.
— Boca que minha mãe beijou não cheira ouvido podre — diz o coronel.

       Os filhos riem. Castro Guerra se pavoneia. Gostou do dito. Será que o Surdo ouviu? Resolve se aproximar. Encosta a boca, pega o Surdo pelos ombros e sacode-o.

— O senhor é o pai de um tal de Jonas?
— O que tem o Jonas? Faltou com o respeito?
— É ou não é?
— Tenho um filho por nome Jonas, senhor.
— Pois é desse filho de uma égua que eu falo
— berrou Castro Guerra.
— Dê um recado a ele, velho. Da minha parte. Diga que não levante mais os olhos pra minha filha Celina. Diga a ele que nem passe perto dela, que corte caminho quando avistar ela. Ouviu, velho surdo de uma peste?
— São rapaziadas, o senhor entende. Isso passa.
— Rapaziadas uma meleca. Diga a ele, velho, que tire o cavalo da chuva. Que minha filha não foi feita pra ser mulher de borra-botas. Ou ele se afasta ou cai na taca!
     E o coronel brandiu a taca, tirando um assovio cortante. O Surdo recuou, branco como cera de vela. Pensou que fosse levar uma surra, ali, na vista dos moços. De qualquer maneira, uma vergonha ser tratado assim, na sua idade, aos berros. Tudo culpa do Jonas. Por que não toma juízo, não procura mulher da sua iguala? Eu avisei, muita gente avisou. E quem ouve conselho não ouve coitado.
— Diga a ele que eu trucido! Trucido mesmo! Sabe o que é? Mato devagar, destruo, corto em pedaços! — berrou o coronel.
      Os filhos ouviam, sem se meter. Mas estavam com o pai, prontos a cumprir ordem dele, por pior que fosse. Castro Guerra pegou a rédea, montou e partiu, salpicando lama mais adiante. Os filhos o acompanharam. De repente, no caminho, ficou somente o Surdo, encolhido, o coração na boca.
“Preciso segurar o Jonas. Mas como, se ele não me ouve? É teimoso como uma mula atolada”. Ia ver Manoel Espalha-Vento, no interesse de um secador que o dito cujo pensava em fazer há mais de um ano — e sempre na dúvida, agarrado aos mil-réis. Mudou de caminho e chegou esbaforido à casa da comadre Raquel, a alpercata batendo no chão e batendo no calcanhar e fazendo lapte-lapte. 
Contou o acontecido.
— O coronel é cobra. Capaz de matar e ir ao velório — ela lhe disse. — Esse namoro de Jonas não prospera, é fruto peco. Melhor ele ir embora. Distância e tempo enfraquecem paixões.
— Foi o que pensei, comadre. Tirar o Jonas daqui. Posso mandar pro Rio-do-Braço, em Ilhéus, pra casa de meu compadre Josefino Calango.  O mais difícil é Jonas concordar. Está apaixonado, de cabeça virada.
— Tem de concordar — disse a comadre, com um olhar sereno em que havia determinação. — Vou falar a Tranqüilino. Ele tem pulso com o Jonas.
A comadre fez uma pausa, enrugou a testa.
— Isso mesmo. Jonas costuma escutar o que ele diz. Mas só quando não está de veneta. 

 
7

(Regina)

 

Sirvo o almoço dos dois. A charqueada com uma capa de gordura, frita no óleo. A farofa d´água. O arroz pegajoso, que é como eles gostam. Um resto de feijão de ontem. Uma tigela com pimenta malagueta machucada, água quente, sal e uns pingos de azeite doce.

—    Venha comer — diz Jonas, empurrando uma cadeira.

—    Agora não.

—    Perdeu a fome?

—    Como mais tarde.

Com certeza ele pensa que, enquanto cozinho, vou fazendo a minha boquinha. Mas hoje nem mesmo provei da comida pra ver se tinha gosto. Escorada no portal, eu os vejo comer. Jonas é mais guloso, atira-se ao prato como os cães e os porcos. Parece ter uma fome antiga, jamais saciada, e não apenas de alimentos. Fome de amigos, conversas, amor. Fome de carinho. O Surdo é mais comedido. Tem paciência de cortar os alimentos e mastigá-los bem, conforme ensina a velha medicina oriental. Ambos, no entanto, adquiriram um jeito de comer igual: fazem um bolo de alimentos, uma mistura de tudo, recolhem com a colher de sopa, calcam o monte com a polpa do polegar e levam o bocado à boca. Deve ser hábito antigo, de família, desde os tempos de São Cristóvão, em Sergipe. Não se habituaram ao uso do garfo, de que se servem apenas para espetar a comida. A polpa do dedo é importante, aquela mesma polpa que espalha o fumo picado na mortalha ou na palha de milho, enrola o cigarro e leva à língua para a cola.

—    O que é? — pergunta Jonas.

—    O que é... o quê?

—    Por que está nos olhando?

—    Ora, por nada. É proibido?

—    Por que fica aí, parada, como uma tonta? Vá caçar o que fazer.

—    Caçar nem sempre é bom.

—    Ah, é?

—    Tem cobra que não anda. Fica quieta, enroscada. Quando a presa passa, dá um bote — e pronto.

—    A propósito de que vem a conversa?

—    Você não falou em caçar o que fazer? Pois tem gente que caça e se dá mal. Pode levar um tiro, ou uma punhalada.

       Jonas se levanta num repelão. Ttalheres tinem na louça. 

—    O que foi? — pergunta o Surdo, atarantado.

Ninguém responde.

—    Brigaram? — insiste o Surdo. — O que foi que ela disse? 

 

Pra que Jonas comprou uma lanterna de pilha? Ora, sua boba, pra vagabundear pela noite. Meu irmão, meu irmãozinho, temos nossas diferenças, eu sei, mas por que ronda à noite o terreiro dos outros, se arriscando a levar um tiro, uma facada, um ataque de cães? Sei que você é jeitoso, os cães foram domados com o estalar dos seus dedos e as tiras de carne cheirosa. Mas — e os homens?  Acha que eles estão de olhos e ouvidos trancados, acha que deixam por isso mesmo, no vai-da-valsa? Calma,.Jonas. Você é ingênuo, pensa que me engana. E se não consegue me enganar, como irá enganar os outros, os malvados? Estou estirada na cama, os galos ainda não começaram a cantar, você chega na ponta dos pés, se debruça pra me escutar, acha que estou ferrada no sono e sai. Faz o mesmo com o Surdo. Comigo é diferente. Tenho olhos e ouvidos afiados, tenho algum fel no coração — e o que não vejo nem me dizem eu imagino facilmente. Sem sair daqui, deitada, vendo a meia-noite chegar e com ela a cantoria dos galos, eu vejo você avançando pelos fundos da casa de Celina, aquietando os cães ferozes. Eu o vejo postado sob a janela, a olhar, a pensar nela com o seio fora da camisa de renda, com o cabelo negro espalhado no travesseiro, a ressonar, a ressonar. A casa quieta — mas quem garante? Quem não me diz que Castro Guerra já sabe, que prepara uma emboscada, que da próxima vez você recebe chumbo grosso nos peitos e é considerado ladrão? Quem me garante que os rapazes não sabem e também prepararam ciladas? Tenho medo, Jonas. Tenho medo que uma noite dessas Celina venha à janela e esse idílio de Romeu e Julieta seja interrompido a tiros ou facadas. Um pressentimento ruim me come por dentro, me faz perder o sono. Só consigo dormir quando ouço você chegar sorrateiro como as pisadas da raposa ou a corrida do saruê. Você abre a porta, entra, corre a taramela, acende uma vela, faz suas necessidades e se deita. Acredito que também não dorme. São dois os insones nesta casa — você não dorme por encantos do amor, eu não durmo de medo. Tenho acompanhado você não é de hoje, desde que se fez garoto. Pensa que não sei das suas traquinagens? Os buracos que cavou em bananeiras para simular cópula? Aquela vez em que, no canto do pasto, protegido pela ingazeira baixa, você deu piparotes na buceta da cabra, que se abriu como uma rachadura? Quando vai a Ferradas esbanja uma parte do salário da semana em casa de putas, se arrisca a pegar doença de rua, difícil e cara de tratar. Nossa mãe faz falta. Não que ela fosse dar um jeito nos seus impulsos de crescimento, nas suas ânsias de macho jovem em toda a força da idade, mas, pelo menos, lhe daria o carinho que diminui essas agonias. Dizem que as mulheres são mais calmas neste particular. Da maneira como falam, até parece que elas não teriam sexo. O que você acha, irmãozinho? Deve achar a mesma coisa, deve nos imaginar frias, sem arroubos, sem ardores. Menos, naturalmente, a sua Celina, que se embandeirou logo pra você não porque você seja irresistível, mas porque irresistível, para ela, é a sua vaidade de fêmea e o seu desejo de mulher raparigueira.

Você já a viu nua, Jonas. Você está perdido. Quem vê mulher nua uma vez, pela primeira vez, vê pelo resto da vida.

8
(Jonas)

 

É lua nova. No céu, um caco de foice em forma de alfanje. Mas os caminhos agora escuros continuam claros na memória. Ele os conhece de cor, suas dobras e elevações, os charcos, as cancelas. Já calculou tudo. Não tem cavalo forte e veloz, mas Passarinho serve, a distância da corrida não é grande. Em Ferradas, arrimado a um balcão, Jonas é impelido a roubar a moça pela conversa em torno de um caso recente ocorrido no Itajuípe.
— Beijo não se pede, rouba-se. Moça que o pai recusa, rouba-se também, e pronto — diz um. 
Depende só da vontade da mulher. Quando ela quer, são favas contadas. É só carregar no lombo do cavalo —  diz outro. 

— Sei não, amor contrariado acaba em tragédia — diz um terceiro, enquanto viram os cálices de aguardente e cospem no chão. — Por isso, pai sabido consente logo: é dos males o menor.

— E se não consentir? E se der a testa?

— Então os apaixonados podem fazer pacto de morte. Tem acontecido. Ou o rapaz leva um tiro de emboscada e a moça vai pra um convento à força, como está nos romances. Ou simplesmente fogem e os pais acabam perdoando. É o mais comum — comenta um.

      Jonas também acha. De qualquer maneira, não está preocupado com as consequências. Ele quer Celina. Celina já disse que também o quer. E então? “Você está disposta a cair no mundo?”, ele perguntou. “Sim. Vou com você.” “Até o oco do mundo?” “Até o fim do mundo”. “E se seu pai e seus irmãos nos perseguirem?” “A gente se esconde”. “Se levarem cães farejadores?” “Não sei. Você é homem, dá um jeito”, disse Celina. “Esteja na janela”, ele instrui. “É só escorregar pra a sela, nas minhas costas, e me abraçar pela cintura.” “Certo”, diz Celina. “Quando”? “Quando eu assoviar baixinho. Fique acordada, de prontidão.” “Sim, amor.”  
Lua nova. Jonas poderia ter escolhido outra noite. Bastaria consultar o almanaque do Surdo pra saber quando viria a lua cheia, pelo menos o quarto crescente. Fugir em noite mal iluminada é mais difícil. Mas fugir em noite de luar claro facilita a perseguição. Melhor deixar tudo nas mãos do destino. E depois, por que esperar dois ou três quartos de lua, quando pode ter Celina daqui a pouco, uma noite dessas, amanhã mesmo?
Em casa, Regina pressente o rapto. Rapto, sim, Celina ainda não fez os dezoito anos. Regina vê Jonas escovar as botas. Vê Jonas testar as rédeas e a brida. Vê Jonas azeitar fechos e molas, lustrar couros, guardar a mochila em que pretende levar mantimento de boca. Ele nunca afiou o facão de noite, é trabalho que sempre deixou pra o de-manhã bem cedo.
Pode ser esta noite, ela pensa. Como filha, como irmã, cabe-lhe o dever de denunciar a desgraça próxima. Chegar-se ao Surdo, interromper-lhe a leitura e gritar nos ouvidos duros: “Jonas vai fugir.” O Surdo ficaria pálido e, retirando os óculos redondos com mão trêmula, manifestaria todo o seu susto e pasmo com uma interrogação: “O que você está me dizendo?” Apenas isso: que Jonas vai raptar a cavalo a filha do façanhudo coronel Castro Guerra.

 

A noite está de fato trevosa. Com a lanterna que ele acende e apaga, a intervalos, pra guiar-se sem atrair muita atenção, como se levado por um fogo-fátuo dos pântanos, Jonas avança devagar e cauteloso pelos domínios de Castro Guerra. Primeiro, os bosques fechados de cacaueiros, com os frutos a brilhar na penumbra da lua; depois, o pomar por trás da casa-grande. Desce pra atar chumaços de panos nos cascos de Passarinho, de forma a reduzir o alarido das aves no poleiro a um grasnido ocasional. E assim, aos poucos, pressentido pelos porcos e já com os cachorros atentos, mas calados, entra no oitão, onde crescem árvores de fruto — o mamoeiro, a caramboleira, o jambeiro, o abacateiro, a pitangueira, algumas laranjeiras-de-umbigo.  O silêncio somente é quebrado pelos ruídos habituais da noite que chegam, em geral, da pocilga, do porão e do poleiro. Insetos chiam. Um que outro pio de coruja em alguma forquilha de árvore, além de morcegos em penugentos voos rasteiros.
O alfanje da lua parece pender afiado sobre Jonas e sua montaria,.quando ele se aproxima da janela e puxa a rédea. Assovia baixo. Nada. Assovia outra vez — e o suor que lhe alaga a testa, sob o chapéu, começa a pingar. Celina como que se esqueceu do trato? Mas não, mas nunca! Se teria deixado dormir, sem perceber? Ou os Castro Guerra, desconfiados do seu jeito sonso, lhe teriam posto um sonífero no copo de leite e estavam. agora à espreita, a mão no cabo dos revólveres e rifles, cavalos selados a escarvar o chão na porta da frente — e o antegosto da vingança, que neles seria cruel?  Jonas estremece. Vai atirar um seixo na folha da janela, arriscando-se a ser descoberto de vez e  abatido a tiros, como um assaltante noturno, quando uma banda da janela se abre e surge, enquadrado como em moldura, o rosto tenso de Celina. Jonas lhe faz um sinal. Ela alarga a janela, sobe no prapeito e se deixa cair na garupa de Passarinho, que aceita a sobrecarga com um sobressalto. Os braços de Celina circulam a cintura de Jonas e ela, toda encostada nele, dele faz um travesseiro grande e duro: o rosto se encosta à espádua, os seios se comprimem contra as costas — um e outro, o cavaleiro e sua moça roubada, uma figura disforme, de estranho dorso e quatro patas, sob os raios entenebrecidos de uma escura lua nova. Jonas chega de leve as rosetas aos vazios de Passarinho, e o cavalo, observado pelos três cães que se coçam, catando pulgas, e ainda aguardam um pedaço de carne, recua pra a sombra mais empoçada dos cacauais — uma sombra compacta em que mal se distinguem os troncos pejados de frutos, entre os quais o cavalo é guiado.
Jonas sente nas costas os seios mornos da moça, que, apertados nos panos, são pra ele duas labaredas reprimidas. Mornos, cálidos, quentes. Quentes também eram o rosto, os braços que cingiam o cavaleiro. Nua, no aconchego da cama, no despudor da intimidade, Celina devia arder gostosamente, dos pés à cabeça — e Jonas concentra agora o seu desejo pra o primeiro instante em que estiverem sozinhos e em resguardo dos Castro Guerra, pra o enleio, que a princípio seria agoniado, dos seus corpos sacudidos por espasmos.

— Esta sem sono? — pergunta Jonas.

— Um pouco.

— Mas evite dormir. Lute contra o sono até estarmos longe.

— Pra onde me leva?

— Pro pernoite em casa de um amigo. Amanhã a gente continua a fugir.

— Tem destino certo?

— Por enquanto, não. Ainda não.

— Estou com medo — sussurra Celina.

— Medo agora é luxo, depois do que fizemos — ele lhe diz.

— Pai e os irmãos já devem estar atrás de nós.

— Talvez não. Eles se movimentam o dia inteiro e, de noite, logo depois da janta, tombam de sono. Dormem como pedras, como brutos.

— Isso é verdade.

— Mas, de manhã cedo, eles me procuram, descobrem a fuga e soltam os cachorros.

— Os deles não nos mordem.

— Mas nos farejam e nos acuam.

Prometo não deixar pistas — Jonas diz, voltando-se na sela, na tentativa de dar-lhe um beijo. Apenas lhe roça os cabelos, que estão cheirosos. Incendiado, com medo de perder o sentido da fuga por obra dos sentidos todos postos na mulher, Jonas atravessa um rio raso, em lugar desacostumado, pra iludir os perseguidores, e costeia a outra margem antes de subir a ribanceira. Apertada a ele, com o rosto a queimar-lhe a espádua larga e os mamilos espetando-lhe as costas, Celina se deixa levar, na primeira e talvez única e grande aventura da sua vida. 

      Agrada-lhe ser moça roubada. Agrada-lhe ir embora. Fugir de casa, no lombo de um cavalo, em noite sem lua, que romântico! Isso a distingue das demais moças, que esperam por seu homem certo, algumas já fanadas pelo tempo de espera, a definhar nas sombrias camarinhas de casarões coloniais.

— Jonas.

—Uhm.

— É pra sempre este nosso amor?

—Juro que é. Da minha parte, é.

— Aconteça o que acontecer?

— Venha o que vier.

— Mas eu tenho medo. Não tinha antes, agora sinto um frio na espinha.

      — E começa a chorar um choro sacudido, de soluços.

— Calma. Esse seu medo é natural — Jonas diz.

—Você também sente?

— Pra lhe ser franco, sinto.

— É o medo de pai, eu sei.

— E dos seus irmãos também. E dos jagunços que eles arregimentam.

— Se nos pegarem, estamos mortos.

— Eu, com certeza. Você, não.

— Mas não me aceitam de volta em casa.

— Isso é verdade.

— Estarei desonrada. Aliás, já estou. Perdi a inocência de donzela ao saltar no lombo deste cavalo — choraminga Celina.

      Silêncio. Ouve-se, além dos grilos, apenas as ressonâncias dos cascos de Passarinho.
       — Na opinião de pai e dos irmãos, já sou uma rapariga, uma prostituta.
       — Eles não nos pegam. Eu lhe escondo na mais alta forquilha de pau, no oco mais escondido da caverna mais fechada, no fundo das ribanceiras aonde ninguém desce — Jonas diz.
      — Virgem! E como vamos viver? Sempre escondidos, atocaiados?

— Dá-se um jeito. Com o tempo, a vigilância afrouxa.

— Mas eu quero casar, Jonas. Na igreja, de véu e grinalda, ouviu?

— Seu pai nunca lhe dará a bênção.

— Não me importo. Você arranja um padre que nos case — e pronto.

— Claro, claro.

— E vamos morar na cidade, e iremos de noite ao cinema, de braço dado, marido e mulher.

— Sim, amor.

      Passarinho dava sinais de cansaço. Noite alta Jonas entrou no arruado do Cajueiro e procurou a casa do amigo Rosendo, que estava avisado. Salvos, por enquanto. Passarinho foi levado à pastagem. Até aqui, nenhum sinal ou notícia de caçada. Sentada numa cadeira suja, na salinha apertada onde, de enfeite, só havia uma folhinha na parede descascada e um São Sebastião crivado de flechas, Celina chorou outra vez. Um pranto silencioso, água que lhe escorria mansa dos olhos machucados. Chorava ainda de manso quando Jonas levou-a nos braços pra o quarto reservado por Rosendo — e ali a teve, afinal, entre lágrimas, gritinhos e ofegos, iniciativas e negaças, à luz de um tisnado candeeiro. Rosendo tinha desaparecido.

9
 (O Surdo)

 

Os olhos do Surdo não se perdem, iguais a órbitas vazias, nas lonjuras, embora da sua casa, no cimo da colina, se desdobrem panoramas como resmas de papel impresso. Na frente, até uma distância de poucos quilômetros, a pastagem cede vez à mata — e esta se ergue qual barreira verde nas proximidades, cinzenta vista de longe. No entanto, nos lados e pra os lados, se impõem elevações que parecem pregadas no céu azul de cartolina — um azul anilado, de verão profundo. 
Abertos estão e ativos, sem uma réstia de sonolência, os olhos do Surdo, e deles tinha necessidade àquela hora. Os duros ouvidos podiam continuar moucos, pois feitos não foram pra distinguir movimentos estranhos no Vale. Existiam pra ouvir, e nem pra isso prestavam. Ali no Vale se instalava, com a chegada de uma matilha presa pelas coleiras a uma grossa correia principal, um acampamento pára-militar
O Surdo guarda um velho binóculo descascado, comido nas beiras pelo azinhavre, mas de lentes que traziam as distâncias e as arriavam, sem segredos, aos seus pés — quais cães de guarda, quais sacos pesados que são jogados mais do que largados no chão. Foi à bica, lavou as lentes com água e sabão, enxugou-as nas fraldas da própria camisa e, assestando o binóculo, viu, entre os cães, o Satanás, o Ferrabrás e a Bruxa.
Estão agitados, pelo jeito. Desacostumados à companhia de outros cães, eles se alvoroçam agora por qualquer motivo — incluindo o fato de estarem em grupo. Saltam, grunhem, repuxam a coleira, riscam o chão com as unhas. O homem que lhes segura a corda é puxado a todo instante pra frente e anda aos saltos, enquanto pragueja. Assanhados, e à distância, aqueles cães parecem insetos de venenoso ferrão, mas trazidos à soleira do Surdo pelo binóculo, nem assim deixam de ser cães de verdade, e ferozes, seus conhecidos. O capataz Miguel, da Fazenda Quatro Léguas, os vigia e contém.
Coisas — ou melhor: contratempos dos Castro Guerra, com quem o Surdo havia topado no caminho deserto, dias atrás, e de quem ouviu o que não esperaria ouvir além do natural e obsequioso bom-dia.  Pra que tantos cães e a que se propõem? Tinham arrebanhado alguns, também de raça e aparência torva, nas vizinhanças, até onde se estendia o império de mando ou forçada convivência do coronel. Estão igualmente indóceis, esses cães desconhecidos. Uma caçada em vista? Uma onça por acaso escapada à extinção e que agora assombra os estábulos?
As lentes do binóculo correm pelo Vale. Chegam trabalhadores a pé — e são dos que, em lugar do manejo airoso da foice ou da enxada, preferem premir gatilhos e correr a mão em lustrosas coronhas pra nestas deixar mais um risco: sinal de menos um vivente neste vasto mundo. Trazem rifles e facões. As lentes se inclinam pra a direita e a esquerda, vasculham caminhos. E não tardam a registrar a chegada estrepitosa de cavaleiros, à frente , brandindo a taca na anca do seu alazão, que encolhe nervoso as carnes, Castro Guerra em pessoa: corado, barba curta, cabelo aprado à escovinha, corpo mediano de uma gordura sólida. Os filhos cavalgam logo atrás. Fechando a coluna, mais dois ou três homens que o Surdo não conhece de vista e muito menos de ouvido.

— Regina! —chamou pra dentro, sem tirar o binóculo das vistas.

— Regina!

A filha apareceu soltando muxoxos. Com certeza uma nova mania do pai. Mas não — aquele ajuntamento lá em baixo, o que pe, o que não é ?

— Dê cá o binóculo.

     Tomou-o quase à força, num arranco. E o que as lentes trouxeram pra a bainha do seu vestido caseiro a fez empalidecer. Mais branca do que já era, olhos arregalados, fôlego curto, Regina recuou, tonta, como se houvesse levado uma pancada.

— Você sabe o que é aquilo lá? — perguntou-lhe o Surdo.
— Sei. Me admiro que você não saiba. Não é atilado, não tem olhos?
— E do que se trata?
— Não está vendo? Não viu pelo binóculo?
— Diga de uma vez, lezeira.
— Ah, é? Agora sou lesa, mas sirvo pra ser chamada a testemunhar…
— Testemunhar? — estranhou o Surdo.
— Sim. Testemunhar a caçada.
— Ah, eu imaginei — disse o Surdo. — Um gato-do-mato que ronda os currais.
— Um gato-do-mato que rouba donzelas em garupa de cavalo, noite alta — diz Regina com um riso maldoso.
— Rouba donzela… Você se refere ao seu irmão Jonas?
      Regina se cala. O Surdo avança pra ela, agarra-lhe os ombros, sacode-a até que as banhas tremem.
      — Diga, leseira, pinoia, saco de banha. É de Jonas que você fala?
— E de quem mais?
— Jonas fugiu com a moça?
— Fugiu.
— Então que Deus nos acuda.

Fez uma pausa perplexa, ajuntou:
—Quando?
— Ontem à noite.
— E por que não me acordou? Não me disse hoje de manhã?
— Pra quê? — retorna Regina, com um brilho de maldade nos olhos.

       Ficam quase colados, a se encarar. Os olhos não piscam. Um fio de baba se solta do canto da boca do Surdo, como se fosse a escuma das suas ruminações. Foi ao prego e tirou o chapéu.

— Fique! — berrou Regina.
 — Não. Eu vou.

—Fique, velho burro. Você não pode fazer nada. E se bancar o valente, leva tapa nas ventas.

      O Surdo começou a descer a escada. Em baixo, pisando na grama, olhou a filha prada no patamar.
     — Vão matar Jonas — ele disse.

 

Negociar, pensa o Surdo. Argumentar, persuadir, implorar até, se preciso for. Tinha na cabeça um ditado latino: se queres a paz, prepra-te pra a guerra, recolhido nas suas leituras de almanaques, seções de curiosidades. E outro, que se contrapunha, do eminente Conselheiro Ruy Barbosa: se queres a guerra, proponho-te o arbitramento. Mais ou menos assim, ultimamente a sua lembrança tinha falhas.
Mas… negociar como? À primeira vista parece fácil, no entanto essa gente gosta de trocar bens, põe no que chamam volta o seu ganho, que é a sua prova de esperteza. Gaba-se do negócio bom que fez, ao permutar um bem de menor valor por outro que lhe é superior, e com a volta, sai de graça, ou quase. É um jogo de sagacidade em que a paciência conta muito: quem resiste mais tempo faz melhor transação. Em linguagem vulgar, a isso chama-se passar a perna, expressão sinônima de enganar, roubar. São esses os negócios mais em voga, míseros interesses miúdos do dia-a-dia, mas que levam, pelo processo de acumulação, a um cabedal.
Ninguém busca, e é pena —, continua a pensar o Surdo, enquanto bate suas alpercatas pelos caminhos — um cabedal de conhecimentos, de parcerias, de concórdia pra o crescimento comum. Idéias nada pesam nesse balcão de secos e molhados em que tanto se negaceia e trapaceia. Princípios, conceitos, ética — nem uma possível interferência do bispo é capaz de encaminhar soluções que priorizem a grandeza humana. Sobretudo, a piedade, a misericórdia.
“O que tenho pra dar em troca de uma provável mercê por Jonas?”, o Surdo indaga a si mesmo, e fica sem resposta, aliás, ele já tem a resposta. Elevar os corações. Mas quem, nesse buraco, pensa no sursum corda, se predomina o empenho de elevar o lucro?
E assim, já de antemão derrotado, o Surdo visita pessoas capazes de botar água fria na fervura dos Castro Guerra.

O quê? Foi mesmo? Ele roubou a menina? — se espanta um.
E logo filha de quem? Do coronel Castro…
Ele teve a ousadia! Olhe, compadre, não quero desfazer de sua pessoa, mas o seu filho desafiou a moral, a religião, os costumes familiares. Por que não escolheu moça modesta, à sua altura e risco?
— Nessa cumbuca eu não meto a mão. É atirar palavras ao vento. Castro Guerra não ouve ninguém.
O seu filho fugiu pra onde?
Ignoro.
E levou a moça na garupa?
Levou.
É o diabo. Olhe, isso não fica assim. Jonas mexeu em ninho de cobras.

       A virgindade de Celina, supostamente rompida, era um bem de que dispunha Castro Guerra pra um negócio — uma troca. E depois, filha de pai honrado tem de ser pura pelo menos de corpo, tem de trazer o selo de sua pureza como certos produtos ostentam garantia de qualidade.

Me desculpe, Surdo. Só há um jeito: esperar.
Esperar que matem o casal?
Seu filho, sim, está condenado. A menina, não. Mas acho que o pai, arrogante como é, não a quer de volta em casa.

      O Surdo verificou então, com pesar, que os homens do Vale, casados e solteiros, pareciam no fundo exultantes: morto Jonas, expulsa Celina de casa, ela iria direto pra um puteiro fino em Itabuna ou Ilhéus. Com certeza, com toda a certeza — e esfregavam as mãos. Havia até quem já pensasse em casar com ela, apesar de furada, na esperança de, com o correr do tempo, tirar benefício do pai. Cóleras não duram eternidades, lágrimas de mulher agem como bálsamo sobre feridas arruinadas.
      O Surdo fez a sua ronda em vão. Agradeceram-lhe a visita, a novidade que lhes trazia era de primeira, era de arromba. Ao retornar na boca da noite ele soube por um vizinho que a expedição de caça a Jonas tinha partido antes do meio-dia, comandada por Castro Guerra, que levava, atrás, um burro com mantimentos de boca.
— Esse só volta quando encontrar os fujões — disse um vizinho.
Mas, por respeito ao Surdo, não comentou o que esperava de tal encontro.



(Voltem na próxima inserção)

 


© 2007-2009 - Hélio Pólvora - Escritor