“É preciso ser velho”, disse o escritor Adonias Filho, na festa de seus 70 anos que lhe oferecemos no Itajuípe. quando desvelou busto e inaugurou a praça que tem o seu nome.
Pois bem: discordo dele. E direi: é preciso ser jovem.
Pela juventude, a essa altura do segundo turno da campanha existencial, eu faria um pacto com Mefistófeles, se os demônios não andassem desmoralizados, de cauda encolhida entre as pernas, tal o seu receio de envolvimento em escusos negócios humanos.
E não queria Margarida por prêmio, porque já tenho Maria.
Tampouco levarei saudades da Aurora do samba de Ataulfo Alves. De auroras quero apenas o despontar de novos dias.
À vista da impossibilidade de compactuar com velhos demônios, resta-me pensar que, ao entrar em idade avançada, entramos também em outras esferas, de modo que, ao lado das mazelas, apuramos o gosto para a amizade (que agora nos reúne aqui), a releitura de livros essenciais, que são poucos, os vinhos aconselhados por Florisvaldo Mattos e Edivaldo M. Boaventura, as conversas com quem entende de literatura, como Carlos Roberto Santos Araujo – e outros deleites. É o prazer que fica – e se não eleva e honra, ao menos consola.
Esse prazer de certas amizades fraternas. Um exemplo: Myriam Fraga, Dama da Poesia em Soterópolis, amiga dos meus tempos do Rio de Janeiro. Outro exemplo: Consuelo Novais Sampaio, que nos traz flores em cesto de vime e guarda histórias do Barão de Jeremoabo. As presenças de João Eurico Matta, que nos dá uma gravata amarela (combinará com meus ternos escuros), Aleilton Fonseca, Aramis Ribeiro Costa, Carlos Ribeiro. O prazer – e este em honra se transforma — de sentar-me ao lado do governador Roberto Santos, fidalgo no porte, nos gestos, na discrição, nos traços – e, sobretudo, homem de bem.
Detesto falar a meu respeito. Tenho pudor da exibição. Sou homem de cômoda poltrona na platéia – e não de representações no palco. Mas devo confessar-lhes que, a partir dos 65 anos, um vulto me acompanha. É uma senhora de rosto ossudo e caiado. vestida de mantos negros, como diz García Lorca num poema. Habituei-me à sua presença e tento dialogar – mas ela, sempre muda, ostenta um sorriso irônico. E se ela acaso tem pressa, eu não tenho pressa alguma. Eu me lixo para essa velha bruxa.
Sempre que acordo e, encantado, inauguro novo dia, costumo contrariar Juan Rulfo, para quem havia dias que ele não queria amanhecer. Eu quero amanhecer. E digo, como aquele personagem de James Joyce: “Sê bem-vinda, Vida!” Olho o mar da Baía, sorvo os crepúsculos e me sinto imerso nas amplitudes universais. Imito então um personagem de Saroyan: pratico o riso e a alegria, a cólera e a ternura, e acompanho o fim de tudo, de Roma e de Babilônia, e também a queda do império americano; o ronco de Dostoiévski me agrada, a fuga do velho Tolstói sobre a neve me comove, embala-me a prosa de Flaubert, me contaminam as risadas de Eça e as sutis ironias de Machado. Sou feliz, simplesmente feliz. Poderia até morar em Água Preta, berço do Professor Soane Nazaré de Andrade e do contista Jorge Medauar, se uma voz interior não me soprasse o conselho de ficar ou avançar, que andar de costas é ato de caranguejo.
A idade espantosamente elevada que me atinge e abençoa tem o grande mérito de trazer as senhoras e os senhores a esta mesa. Tenho mais amigos do que pensava. Vejo Maria acompanhada de nossos filhos Raquel e Hélio, ambos adultos, e lembro uma filha e uma neta ausentes. E lhes peço que me perdoem os cacoetes, as manias, as birras, os resmungos e as ilusões perdidas - e que procurem, como eu, resistir.
Brindo à permanência de todos nós, no desejo de que dure, ainda que seja a eternidade de um dia, uma hora, um minuto.
Amém.
(Palavras no almoço de adesão, comemorativo da nova idade deste escritor, organizado pela Academia de Letras da Bahia, na Cantina Cortile, em Salvador, Bahia, a 2 de outubro de 2008).
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ARTE: Setúbal
—
O senhor fez mesmo 70 anos? Não parece. Nem uma ruga...
— Fiz.
— E o que acha disso?
— Acho que estou me perdendo para a vida.
— Viver, então, é um processo doloroso?
— Doloroso e também perigoso, como dizia o Rosa. Não
basta querer chegar lá e ter um pouco de sorte. Eu tive muita sorte:
fui longe, mais longe do que alcançavam as minhas fracas pernas.
— A idade pesa?
— Olhe, escritor não é governado apenas pelo tempo
cronológico. Conta, sobretudo, com o tempo interior. Às
vezes eu me sinto velho como Matusalém — não o do
time do Vitória, mas o da Bíblia. Em outras ocasiões,
uma criança de colo.
— Hoje, por sinal, é o Dia das Crianças.
— Bem lembrado. Se quiser, pode dar-me um brinquedo. Gosto de brincar
com palavras. Ou sirva-me uma sopa de letrinhas..
— O senhor disse outro dia que essa sua idade é fatal. Por
quê?
— Porque é uma esquina perigosa. Espero não derrapar
logo adiante.
— Uai, que idéia mais pessimista...
— Faz parte do processo. Quem anda está sujeito a derrapagens.
E, depois, Sêneca já disse que viver significa aprender,
paralelamente, a preparar-se para a chegada da Indesejada das Gentes.
— Indesejada das Gentes? Que é isso?
— Nunca leu Machado de Assis? Ele tem um conto sobre uma moça
bonita, muita requestada, que noivou muito e jamais casou. Chama-se, o
conto, “A Desejada das Gentes”.
— E daí? Não percebo.
— E daí, o poeta Manuel Bandeira criou uma variante para
o termo, que você, entrevistadora bonita e educada, não quer
pronunciar.
— Por que o senhor é tão pessimista?
— Pessimista, eu? Sou realista. O pessimista leva sobre o otimista
a vantagem de não ser surpreendido.
— Há motivos para o seu pessimismo?
— Claro. Eu culpo Machado, Voltaire, Faulkner, Tchékhov,
todos os escritores conscientes da miséria da condição
humana. Fui envenenado por eles.
— Não seria melhor ler os escritores alegres, amenos, os
confiantes...
— Escritor dessa raça é empulhador. A literatura de
verdade não mexe com o luxo dos pensamentos e atos. Mexe com o
lixo da vida.
— Ai, que horror! Por isso Joãozinho Trinta disse que intelectual
gosta de lixo. O povão prefere o luxo.
— Certo. Já notou como o Brasil tem reis? Rei Pelé,
Rei Roberto Carlos, Rei de Roma, Rainha dos Baixinhos, Rei da Voz, Rei
do Gado, Ruy Rei... Mas pode crer: a verdade está no lixo. A verdade
talvez seja um resto de alguma coisa que você encontra no lixo e
recicla. A vida dos que vivem na riqueza, no luxo, é enfadonha.
— Por quê?
— Não sei. Pergunte ao nosso Presidente.
— Ele falou isso?
— Falou. E querendo nos dar as alegrias da pobreza, prepara um pacote
para que afundemos cada vez mais na pobreza O pacotaço vem aí.
Sejamos pobres, eu repito. Mas nunca pobres de espírito.
— Se o senhor pudesse voltar ao passado, faria o mesmo?
— Se pudesse levar a minha experiência de hoje, sim. Eu não
cometeria equívocos.
— Que equívocos o senhor cometeu?
— Os de ser discreto. Os de ser escrupuloso. Os de não pedir
em causa própria. O de me sabotar antes que me sabotem.
— O que mais desejaria agora?
— Filosofar à sombra das oliveiras do Jardim de Platão,
já que os nossos cacaueiros estão doentes, estéreis.
Para os outros, dinheiro e felicidade.
— Por que o senhor é irônico?
— A ironia é a expressão superior do humorismo. É
a única arma de que dispõe um pobre homem de Itabuna.
— Agora, para terminar: vale a pena viver, chegar aos 80?
— Oitenta significa inverno. Já lá chego. Mas não
faz mal: arranja-se cobertor grosso.
Hélio
Pólvora - O Escritor
O
escritor Hélio Pólvora (nome completo: Hélio Pólvora
de Almeida) é natural de Itabuna, Bahia, onde nasceu em 1928, em
fazenda de cacau. Fez estudos secundários em Salvador, no Colégio
Dois de Julho, Colégio Carneiro Ribeiro e Colégio da Bahia.
Iniciou-se no jornalismo como colaborador e editor do semanário
Voz de Itabuna; mais adiante, foi correspondente em sua cidade de jornais
de Salvador. Em janeiro de 1953 fixou-se no Rio de Janeiro, para curso
universitário. Ali residiu pouco mais de trinta anos. Datam desse
período o início de sua carreira literária e uma
atividade jornalística intensa, que prosseguiram, depois de 1984,
na Bahia (Itabuna, Ilhéus e Salvador).
À sua estréia em livro com Os Galos da Aurora (contos, 1958,
reescrito em 2002), seguiram-se cerca de 25 títulos de ficção
e crítica literária, além de participação
em dezenas de antologias nacionais e estrangeiras. Contos seus estão
traduzidos em espanhol, inglês, francês, italiano, alemão
e holandês.
A partir de 1990, passou a residir em Salvador. Eleito para a Cadeira
29 da Academia de Letras da Bahia, faz parte também da Academia
de Letras do Brasil (sede em Brasília, DF), onde ocupa a cadeira
13, que tem como patrono Graciliano Ramos. Pertence ainda à Academia
de Letras de Ilhéus.
É Doutor honoris causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz.
Participou, ao lado de nomes como José Guilherme Merquior, Miécio
Táti e Ivan Cavalcanti Proença, da Comissão Machado
de Assis, instituída pelo Ministro da Educação e
Cultura, Jarbas Passarinho, para reconstituir os textos e reeditar a obra
do Mestre, foi parecerista do Instituto Nacional do Livro e da Livraria
Francisco Alves Editora, no Rio de Janeiro, e em Salvador integrou a Comissão
Selo Bahia, criada pela Secretaria da Cultura e do Turismo, no âmbito
da Fundação Cultural do Estado da Bahia.
Foi editor (Edições Antares, Rio de Janeiro), crítico
literário do Jornal do Brasil, Veja e Correio Braziliense, por
muitos anos, cronista e crítico de cinema do Jornal do Brasil,
Shopping News e outros jornais e revistas. Fundador e editor do jornal
Cacau-Letras, em Itabuna. Atualmente é cronista de A Tarde, de
Salvador, aos sábados, onde escreve há mais de doze anos.
Também publica naquele órgão um artigo semanal, na
página de opinião, aos domingos, e tem sido colaborador
assíduo do caderno Cultural, de A Tarde. Dos seus livros publicados,
doze são de contos literários.
Conquistou prêmios literários de nomeada, entre os quais
os da Bienal Nestlé de Literatura, anos 1982 e 1986, para contos
(1.º lugar), e mais os prêmios da Fundação Castro
Maya, para o livro Estranhos e Assustados, e Jornal do Commercio, para
Os Galos da Aurora. Assina mais de oitenta traduções de
livros de ficção (romances e contos) e ensaios. Visitou
a Colômbia, Estados Unidos e Alemanha, a convite oficial, e conhece
bem, além do Brasil, a Europa Ocidental.
Livros Publicados
Os Galos da Aurora, contos, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1958; Casa das Palavras, Salvador, 2002, edição definitiva.
A Mulher na Janela, contos e crônicas, Editora A Estante, Rio de Janeiro, 1962.
Estranhos e Assustados, contos, Editora Lidador, Rio de Janeiro, 1966; 2.ª edição, Livraria Francisco Alves Editora, Rio de Janeiro, 1977.
A Força da Ficção, crítica literária, Editora Vozes, Petrópolis, 1970.
Noites Vivas, contos, Editora Expressão e Cultura, Rio de Janeiro, 1971; 2.ª edição, Edições Antares, Rio de Janeiro, 1978.
Graciliano, Machado, Drummond & Outros, crítica literária, Livraria Francisco Alves, Editora, Rio de Janeiro, 1973.
10 Contos Escolhidos, Editora Horizonte, Brasília, 1984.
Massacre no Km 13, contos, Edições Antares, Rio de Janeiro, 1980.
O Menino do Cacau, novela, Edições Antares, Rio de Janeiro, 1975.
O Grito da Perdiz, contos, Difel – Difusão Européia do Livro, São Paulo, 1982.
Mar de Azov, contos, Melhoramentos, São Paulo, 1986.
Xerazade, contos, José Olympio, Rio de Janeiro, 1992.
Um Pataxó em Chicago, crônicas, BDA, Salvador, 1994.
O Espaço Interior, crítica literária, Editora da Universidade Livre do Mar e da Mata, Ilhéus, 1998.
Crônicas da Capitania, crônicas, Legnar, São Paulo, 2000.
A Guerra dos Foguetões Machos, contos, Orabem Editora, Alenquer, Portugal, 2000.
O Rei dos Surubins, contos, Imago, Rio de Janeiro, 2000.
Itinerários do Conto. Interfaces críticas e teóricas da moderna short story. Editus – Editora da Universidade Estadual de Santa Cruz, Ilhéus, 2002,
Memorial de Outono, crônicas. Bertrand Brasil, Rio de Janeiro, 2005.
Contos da Noite Fechada. Editus – Editora da Universidade Estadual de Santa Cruz, Ilhéus, 2003.
De Amor Ainda Se Morre, crônicas. Salvador: EPP Publicações e Publicidade, 2008, 116 p.
Participação em Antologias
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