[Desdobramento do capítulo “O Regresso”, do romance Dom Casmurro,
a partir do primeiro parágrafo, em itálico, do Mestre.
Ezequiel Escobar retorna em busca de carinho paternal, mas encontra indiferença e ódio]
O REGRESSO
Hélio
Pólvora
Assim preencho as lacunas alheias;
assim podes também preencher as minhas.
Machado de Assis, Dom Casmurro, Cap. LIX
Tenho-me feito esquecer. Moro longe e saio pouco. Não é que haja efetivamente ligado as duas pontas da vida. Esta casa do Engenho Novo, conquanto reproduza a de Matacavalos, apenas me lembra aquela, e mais por efeito de comparação e de reflexão que de sentimento.
Vivo com um criado que cuida do governo da casa; às vezes, se vou ao teatro ou estiro as pernas, a perambular por estas ruas e estradas vizinhas, ajuda-me a dar o laço na gravata e vestir o casaco. É calado — e quem cala costuma ser discreto. A princípio, sua presença me incomodava, dando-me a impressão de que interferia na minha intimidade, quebrando-a, impedindo-me, depois, de reunir os fragmentos. Nessas ocasiões eu me buscava, casmurro, sem me encontrar. Mais tarde, acostumei-me. Nesta vida agüenta-se de tudo, as traições se emboscam à nossa espera; mas, tomando-se de empréstimo um pouco daquela paciência de Job, suporta-se a visão do mesmo rosto ao espelho. Digo mal: o rosto nunca é o mesmo, que nele o tempo deixa a sua pátina sob forma de rugas, esgares quase imperceptíveis, sobrolhos que se franzem e cabelos com toques de cinza.
Uma viúva desvalida, já entrada em anos, cuida-me da roupa e arruma a alcova, prepara as refeições e as serve. Aprendeu com o criado a calar-se, e quando, à cabeceira de mesa, esgrimo minhas armas, que são o garfo e a faca, porque continuo comendo bem e dormindo melhor ainda, afora pesadelos ocasionais, eu a vejo em pé, na outra cabeceira, tesa. É a sentinela impassível dos meus almoços e jantares solitários.
A propósito das raras noites mal dormidas, lembra-me que numa noite dessas sonhei com uma jornada por trevas espessas, que de repente se esgarçaram para mostrar uma cova. Dela emergiu, lenta e determinada, uma sombra de mulher, que a princípio identifiquei como minha mãe, D. Glória, hoje na eternidade do Céu. As feições da mulher mudaram e temi fosse Capitu. Agarrou-se a mim, num gesto de ternura que logo passei a repelir, entre outros motivos porque ela, ardilosa, com um frouxo de riso nos brumosos olhos, talvez me quisesse arrastar para o seu chão.
Acordei banhado em suor frio e parece-me que gritei. Amâncio, o criado, que dorme na saleta ao lado, acudiu-me. Borras. Borras no fundo do cálice em que sorvemos, em pequenos goles e a contragosto, o vinho da vida, às vezes de amargo bouquet.
Os poucos amigos, que enumero nos dedos da mão, admiram-se do meu apego à vida solitária. “Anda daí, Casmurro”, dizem em bilhetes esporádicos. “A reclusão é para os idosos, e tu ressumas vida... Por que banir-se nesse Engenho Novo? Vem almoçar comigo amanha, ao Hotel dos Estrangeiros. Dou-te conversa amena, charutos de Havana, alguma galhofa. Só não te prometo dama”. Tem graça. Se penso ir, e inicio preparativos, a casa emudece e se retrai, como em sinal de protesto. Sou eu que a enche, sou o seu inquilino escolhido pelos fados. A andar pelos corredores, pelas salas, pelas alcovas, ou a escrever memórias altas horas, à luz da pantalha, no gabinete, esta casa me pertence, é o ventre que me acolhe, esta casa se me entrega, grave como eu sou, como me tornaram — e nesse conúbio sentimos um prazer orgástico. De modo que vou ficando.
Meu olhar atravessa Amâncio e a viúva como se fossem espectrais, tal e qual as senhoras, na Roma dos césares, se desnudavam diante dos criados, que para elas não eram seres humanos.
Mas Ezequiel turbou-me a consentida solidão.
Aconteceu o inesperado. Soa a badalada fatídica da pêndula. O fiel Amâncio traz numa salva um cartão de visitas. Leio: EZEQUIEL A. DE SANTIAGO. Uma emoção forte me sobe à garganta; é um aperto de garrote vil. Pergunto em voz incerta:
— O cavalheiro veio em pessoa?
— Sim. Está no salão.
— Que espere.
Eu estava a vestir-me para o almoço. Abotôo os punhos da camisa branca engomada. Empenho-me em fechar o colarinho com um botão de ouro: a ponta entra-me na carne, sufoco, o rosto queima. Meu filho presuntivo espera-me em baixo. Dou-lhe dez, quinze minutos de espera. Que se distraia olhando os quadros de Santiagos ancestrais, menos o da mãe. Sentado na beira da cama, tamborilo os nós dos dedos no criado-mudo. A pêndula oscila na parede, é a cimitarra do tempo que desce sobre nós, que nos golpeia a todos. Sete, onze, quinze minutos. Devo descer, afinal ele passa por meu filho, se julga fruto da minha semente, tenho de recebê-lo, tantos anos depois, com honras e júbilo de pai saudoso. Em meio à escada, penso: deverei correr até ele, talvez abrir os braços no reencontro comovido? Não, isso nunca. Chego ao patamar, piso no salão com pés de veludo — e por menos ruído que faça, Ezequiel me ouve, tem os ouças afiadas de animal arisco. Estava de costas, a olhar o retrato a óleo do suposto avô paterno. Ouve-me e volta-se.
É ele, sim. Não este, Ezequiel, mas o outro do mesmo prenome — o meu dileto, o meu querido amigo Escobar, que acabou manchando-me com a desonra o leito conjugal, alias enganou-me desde o início. O rosto é igual, o sorriso, a testa, os olhos; minha vista se turva, tenho para mim, por um breve instante, que Escobar não morreu afogado, na praia da Glória, ou então ressuscitou naquele moço, e mais uma vez se mete na minha casa e busca sorrateiro a minha alcova,
Ezequiel, de cara rapada e sorriso amplo, assume os meus gestos tolhidos de correr e abraçar. Eu continuo parado.
— Mas o senhor em nada mudou, é o triunfo da juventude! — ele exclama, em meio ao abraço.
Tenho os braços caídos, como transformados em inúteis apêndices. Levanto um deles, maquinalmente, e com a mão espalmada dou-lhe duas pancadinhas afetuosas nas costas.
— Achas? Há tanto tempo não nos vemos...
— Pois eu o tenho visto e muito, papai. Nos retratos. |
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— Que retratos, Ezequiel?
— Ora, os seus, que minha mãe me mostrava. Elogiava-o muito, sabes? Sempre cavalheiro, dizia. Compreensivo, educado, generoso.
— Bondades da falecida.
— Falava de coração. Já em presença da morte, sentindo-se trespassar, agarrou-me a mão, fez-me jurar.
— O quê, se me permite a indiscrição?
— Que viria vê-lo, já que papai não se dispunha a visitar-nos.
— As viagens de paquete me fatigam. Eu diria até que me enjoam. Basta a idéia de atravessar o Atlântico, e depois buscar a Suíça em carruagens, para me fatigar.
Ezequiel encara-me em silêncio. Depois:
— Nunca saiu da Corte?
— Duas vezes. A Petrópolis.
— Pois já são viagens... Mas espere, papai sempre nos levou à Europa!
— É certo. Levei-os à Suíça, tu, a professora gaúcha e tua mãe...
— Ouvi dizer que voltaste duas vezes, sem nos ver...
— São conversas... Pois eu iria à Europa sem os visitar?
Ele calou-se. Aproveitei-lhe o embaraço para torcer o diálogo.
— Prefiro as outras viagens, as interiores. Não diria à roda da vida, que não quero parecer presunçoso, mas à roda de mim mesmo. E agora, vamos ao almoço.
Não lhe dei tempo de saborear o pensamento. E creio que tive razão, porque Ezequiel, tal e qual o pai Escobar, preferiu saborear a comida, que estava a capricho. Notei que comia da mesma maneira que o pai — com a cabeça baixa, a cara próxima do prato, como se a comer também com os olhos, com as maçãs do rosto, com a testa e os cabelos.
Esqueceu-me dizer que Ezequiel vestia de luto pela mãe defunta, mas trajado à moderna. Como no meu guarda-roupa predomina o preto, e eu o tivesse recebido assim, a envergar um dos ternos mais severos, ocorreu-me que ele me julgava saudoso da mãe e a render-lhe homenagem. Olhou-me muito nos primeiros dias, com aquele respeito que me tinha o outro Ezequiel, meu companheiro no seminário de São José. Uma tarde, vendo-me numa chaise-longue, na sacada dos fundos, sob metade da sombra copada de velha mangueira, sentou-se perto, a um banco, e esperou que eu encerrasse a sesta. Sem dormitar, eu o espiava pelo canto do olho. Um belo mancebo, como não! Apenas um pouco mais baixo em altura que o pai, e menos robusto, o que se explicaria pela idade — mas com o mesmo rosto, a mesma afetação afrancesada na fala. Faltava-lhe tão-somente a dissimulação dos traidores. Afinal, tive de abrir os olhos e esboçar um bocejo.
— Não tens o hábito da sesta? — perguntei-lhe.
— São cousas dos trópicos. Mas confesso que o silêncio aqui é claustral e me faz pestanejar às tardes.
— Esteja a seu gosto — respondi. — Que fazias?
— Agora ou antes?
— Aqui e agora.
— Repassava um capítulo de arqueologia. Logo me enfadei. Por fim, pensei em mamãe.
Calei-me. Os olhos de Ezequiel nublaram-se.
— Morreu bonita, a minha mãe.
Comentei de má vontade, como quem recita uma página enfadonha, que ela sempre fora bonita, desde menina, nos folguedos do quintal de sua casa, que ficava ao lado da nossa, na rua de Matacavalos. Ezequiel, visivelmente interessado, pediu pormenores.
— Conheceram-se ali?
Como eu calasse, ou me demorasse a responder, respondeu por mim:
— Ora, está claro que sim! Dois meninos a brincar juntos, a se visitarem, a namorar, no início às escondidas...
Enrubesci. Tive o ímpeto de confessar-lhe que eu era tímido e bobo. Que a mãe dele, apesar de menina, tinha a malícia da mulher, e me seduziu, tirando-me da ingênua donzelice. Pobre, filha do Tartaruga, o administrador interino, concebeu o plano de desposar-me para subir na vida, e nesse sentido cooptou até o seu inimigo José Dias, o homem dos superlativos, que afinal me livrou da condenação ao sacerdócio, e fez-se querida de minha mãe. Espertíssima. Os olhos de cigana obliqua e dissimulada caíam-lhe à feição. Maquiavelíssima. Mais tarde, já antes de se assinar Sra. Bento Santiago, entregou-se de vez a Escobar. Assaltou-me a vontade de me erguer e apontar a Ezequiel um dedo acusador: “Proíbo-te o tratamento de pai. Pede a tua bênção póstuma a Escobar, teu pai legítimo. Nossa intimidade era aconchegante, assemelhava-se a uma casa de janelas e portas apenas cerradas, mas sem tranca — e ele foi entrando. Estava à procura de mulher e chegou a deitar olhos de carneiro morto a minha mãe, considerando-a santa e pura, senhora ainda moça e bela. Estou que o enlevo brotou-lhe do cálculo que fez dos aluguéis dela, proprietária de muitas casas. Mas havia a defunta tua mãe, que gostava de recolher olhares masculinos, mesmo depois de casada, quando íamos a bailes, ela a ostentar os magníficos braços nus em que os cavalheiros roçavam a lapela ou a manga de seus fraques. Certo estou que já namoravam antes, quando teu pai calculista se fez mensageiro de nossas cartas de amor. Deixei-a só, em casa, duas vezes, para ir ao teatro, e numa delas, voltando de inopino, no final do primeiro ato, dei com o meu comborço no corredor... Elementar, não achas? Tua mãe alegara enxaqueca para não ir, mas nós ambos a encontramos boa. Fui o único cego. Até minha mãe, aquela santa que de ninguém maldava, esfriou relações com Capitu, deixou de nos visitar na Glória. Ela sabia! E agora que te falei, vai-te, desaparece!”
Mas a minha boca continuou trancada. Pensar é quase dizer. E quando não se exprime o que se pensa, sinais da luta íntima aprecem no rosto. O meu avermelhou-se, senti veias saltarem na fronte; um nó grosso difícil de desfazer subiu-me à garganta. Ezequiel preocupou-se:
— Papai sente-se mal?
Tinha corrido a espreitar-me de perto. E aquela face convulsa lembrava-lhe apoplexias.
— Queira desculpar-me. Não é nada.
— Está seguro?
— Inteiramente.
— Vou buscar um copo de água fresca.
— Deixe que eu chamo o Amâncio. Aliás, não é preciso.
Mas ele não se deteve. Daí a pouco voltava com uma bandeja e nesta, solitário, o copo com água.
— Beba aos goles. Devagar.
Obedeci, constrangido. E para quebrar o constrangimento, pilheriei:
— Arqueólogo ou médico?
— Os arqueólogos são médicos, em certo sentido. Não curam, reconstituem vidas passadas. Não é este o caso, felizmente.
Atacamos outros assuntos, com muitas pausas, e ele sempre a me espiar com os olhos do outro Ezequiel. Senti arrefecer o rubor do rosto e engoli em seco o nó na garganta. Ele e o defunto pai tinham uma semelhança quase que de cópia. Quando resolveria partir?, eu me perguntava, vexado. Por que não saía? Não ia espairecer à cidade, na Rua do Ouvidor, onde passam senhoras e moças elegantes? Em criança ele gostava de doces e de música. Então, por que não freqüentar as confeitarias da moda, como a Colombo, ou comprar bilhete para o Teatro Lírico?
— O trem da Central é confortável — eu lhe disse certa tarde em que me impunha sua companhia na varanda.
— Na Europa temos ótimos trens — foi o que respondeu.
— Estou a falar do nosso. Passa aqui perto, o movimento na estação é reduzido. Toca então a divertir-se.
Enfiei-lhe no bolso, dobrada, uma nota de cem mil-réis. Ezequiel tentou recuar o corpo, em movimento de recusa, mas os meus dedos foram mais ágeis. A cédula já se lhe aninhara em cima do coração. Vencido sem travar luta, deu de ombros.
— Se papai manda, obedeço.
— Eu não mando. Apenas lhe combato o tédio.
Foi, no dia seguinte. Não o vi partir no rumo da estação do Engenho Novo. Não o vi nem ouvi voltar, e por breve instante desejei que houvesse partido de fato, tomado hotel, acompanhado nos jornais a chegada e partida dos paquetes, talvez se enamorado de alguma moça com quem, àquela hora, trocava carícias e juras de amor — o que fiz, o que não farei mais:. estou viúvo casmurro. Voltei a encontrá-lo, escanhoado e sorridente, à mesa do almoço, à minha espera. Ergueu-se, cerimonioso, arredou o assento da cabeceira e encostou-o suavemente, como quem encosta a proa de um barco, fazendo-me sentar a gosto. Adulador, insinuante, pura vaselina; tal pai, tal filho.
Confessou-me, enquanto barrava uma côdea de pão com manteiga de Minas, que a cidade o decepcionara: pequena, provinciana, espremida, nem de longe competia com as capitais européias. E sentia-se no ar um odor de doença tropical que traz febres e infecções.
Fui recostar-me após o café pequeno, a fumar um charuto. Ofereci-lhe a caixa aberta de onde se desprendia o cheiro extasiante do tabaco de mistura com o cheiro do cedro. Recusou: não fumava. A mão erguida à altura do peito parecia um anteparo às volutas do meu Havana. Olhava-me. De súbito:
— Papai recorda aquela vez em que me escoltou à escola?
— Não me lembra...
— Estávamos então na casa da Glória.
— Ah, perfeitamente.
— Eu não queria ir. Tolice de menino mimado — reconheceu com uma risada breve, inclinando-se à frente. Decerto queria colher a minha reação.
— E por que não querias a escola?
— O professor Ewerton me dava medo.
— Bateu-te alguma vez?
— Isso não, mas empunhava uma régua comprida que costumava estalar no lombo dos pândegos. Por vezes olhou-me atravessado.
— Eras travesso, pois não?
— Um pouco. Chorei no caminho até a Lapa, e papai puxava-me. Lá pelas tantas, perdendo a paciência, sacudiu-me.
— Peço desculpas atrasadas.
— Não tem de quê: mereci os safanões. A partir daquele dia, mestre Ewerton tratou-me com delicadeza. Os olhares, em vez de atravessados, eram retos e mansos.
— Por que? Mudaste de conduta?
— Ele é que mudou. E por causa de papai.
— O que fiz de bom em teu proveito?
— Tiveste uma conversa particular com o diretor. Afinal, eras o Dr. Bento Santiago, advogado de banca próspera e burguês.
— Ah.
A conversa morreu nesta exclamação. Em geral as exclamações avivam as conversas, mas aquela talvez tenha sido proferida com indiferença patente, ou em tom cortante. É que o episódio voltara-me em cheio. Já então eu detestava Ezequiel, que, às vezes, me enojava com suas imitações. A princípio, ri-me do seu talento para imitar outros. Depois, à medida que crescia, as imitações se transformavam em traços, jeitos e trejeitos, expressões corporais, posturas; e, a começar pelos pés, que eram os do outro Ezequiel, aquele menino imitava em tudo o meu comborço. Melhor: ia além da imitação, reproduzia-o geneticamente.
Se eu queria evitar Ezequiel, pedia as refeições no quarto. Ali me deixava ficar, a pretexto de repouso, com ordens aos criados para não ser perturbado. Do quarto escapava para o jardim, e me punha a podar com uma tesoura as roseiras e os jasmins-do-cabo. Ou, na horta, preparava leiras para as cebolas e alhos, ou fincava estruturas em que os tomateiros, agradecidos, escoravam os ramos e subiam em direção ao sol. O que faria Ezequiel àquela hora? Talvez andasse a cavalo pelos subúrbios, ou tomasse o trem para a cidade, a ver as montras das lojas e a beber chocolate com sequilhos na Colombo. Eu sempre lhe deixava dinheiro em cima do criado-mudo. Pagava, assim, um estipêndio por minha intimidade e solidão. Quem me garante não estaria ele com mulher? A idéia me zumbia na cabeça, enervando-me, qual besouro impertinente. O pai também fora chegado a aventuras galantes. Julgava-se irresistível e, ademais, as mulheres demonstram inclinação pelos tolos. Falara-se, uma vez, em certa corista que... Dane-se o Escobar! Que a terra lhe seja leve, com uma pedra por cima!
E assim passamos seis meses. Havia diante de nós uma pêndula, que batia o tique-taque no seu vaivém, até quando lhe dessem corda, a escavar os costados do tempo, e eu a desejar o avanço rápido da lâmina, enquanto para ele o mostrador não trazia número nem ponteiros, e havia apenas uma pêndula a oscilar. Desejou um dia visitar tia Justina, que estava enferma, presa ao leito.
— Não vale a pena.
— Por que não?
— Está nas últimas.
— Ainda assim...
— Não te reconheceria.
— De qualquer forma, uma visita de caridade...
— Caridade inútil para ela. E quanto a ti, não marcarias presença na contabilidade afetiva da enferma.
Ezequiel pendeu a cabeça, a pensar.
— Ela sempre convolou segundas núpcias?
— Esteve com um pé no altar. Mas era pessoa difícil, dada a ressalvas. Sempre com um mas, porém, todavia na ponta da língua. Simpatizava com o Dr. João da Costa, o pretendente, mas o considerava um feixe de ossos.
— Só por isso?
— Tia Justina, com o prudente cálculo prévio das mulheres em geral, resolveu esperar. Mas ele não deitava corpo. Ao invés de ganhar carnes, emagrecia a olhos vistos. Afinal, finou-se. Estava um fio de homem.
Certas noites o sono, esse enfermeiro misericordioso, não me acudia. Pingada a última linha do dia no livro de memórias, devolvida a caneta ao bocal, guardado o manuscrito a chave, no gabinete, eu me punha a errar pela casa; nessas ocasiões é que a sentia mais de perto, ela me ciciava algo. O quê? Talvez a conclusão de que não reproduzia a casa de Matacavalos por lhe faltar sentimento. Tinha memória, tinha reflexão, o sentimento é que lhe andava fugidio. O luar, que aqui no Engenho Novo costuma ser um candelabro de luzes, criava nos corredores, alcovas e salas um ambiente penumbroso de fundo de oceano. Eu não levava lanterna nem vela em castiçal. As trevas ralas como que me davam proteção de couraça, e eis-me a vagar e a vogar pela casa que eu conhecia bem, que era um ventre conchegante. Subia, descia, deslizava a mão por faianças e maçanetas, avançava pelos corredores longos — sombra mais negra a recortar-se na sombra que o luar diluía um tanto. Fora, o arvoredo rumorejava. Cães ladravam, e suas vozes me soavam lamentosas como uivos de lobos. Uma noite, uma dessas noites, ah, eu me lembro com a nitidez relampejante de um pesadelo, vim a colidir com Ezequiel. Este retornava ao seu quarto, também na penumbra; o choque nos deixou desarvorados, éramos dois fantasmas a esmo, por uma casa escura, sem encontro agendado. Acho que gritei de susto. Enfim, grito ou não, algo me saiu da boca, e se não era uivo podia ser baba ou fel. Ezequiel amparou-me, porque acordei depois no meu leito, para onde certamente me transportara nos braços fortes. O meu hóspede esfregava-me um lenço borrifado de cânfora nas fontes. Vi-lhe o rosto junto ao meu, ao recobrar os sentidos, e novamente ia gritar quando ele me tapou a boca com a morna palma.
A luz da pantalha no criado-mudo nos banhava. Ezequiel retirou a mão e ficamos a nos olhar. Eu arfava. Virei os olhos para não o ver tão próximo, mas acredito que a emoção de todo o episódio daquela noite lhe tenha vencido os escrúpulos, É que lhe senti o rosto colado ao meu, e um beijo longo, ruidoso, molhado, logo seguido de outro e de um terceiro. Retorci-me como verme em areia ardente, virei a cabeça para o outro lado. Nem assim Ezequiel parou de estalar-me beijos sôfregos. E dizia:
— Papai, papai...
Apenas estas duas palavras: papai, papai... Deixava-as no ar sob forma de pensamento incompleto, porque censurado, bloqueado na sua nascente. Recuou e formalizou-se. Fitava-me.
— Papai está bem?
Acenei que sim com a cabeça.
Ele aproximou o rosto, talvez para limpar-me o suor da testa, e eu, creio que de olhos esgazeados, e firmando-me nos cotovelos, quis retroceder, dei com as costas no espaldar do leito. Ezequiel parou e se recompôs.
— Vou trazer-lhe uma chávena de chá — disse.
Não respondi.
— Prefere de folhas de laranjeira ou erva-cidreira?
Também não respondi. Ainda tinha os olhos dilatados.
Os incidentes de tal noite tiveram o condão de quebrar o formalismo entre nós, mas não na medida que se espera entre pai e filho. No livro-razão das minhas vergonhas ele havia lançado um crédito. O esquecido livro de sua vida de menino, adolescente e afinal rapaz, ao lado da mãe, na Suíça, eu forcejava agora por folhear, depois de passar pela folha-de-rosto, que às vezes resume o livro e dispensa leitura.
Em certo dia (e já lá se iam quase seis meses de seu regresso), Ezequiel me disse que havia encontrado numa confeitaria da Avenida Central dois companheiros de universidade; um, chileno; o outro, americano. Ambos, como ele, arqueólogos iniciantes. Beberam, acenderam charutos perfumados e combinaram uma viagem juntos.
Alvorocei-me:
— Quando será?
— Duas, três semanas.
— E em que terra vão cavar relíquias?
— Palestina.
— Trabalho profissional?
— Férias.
Férias! O que ele fazia, senão gozar férias? E a mim. que delas tanto precisava, e delas me julgava merecedor, como forma de amarelecer retratos, domar ressacas e más lembranças, não apareciam amigos a resgatar-me, sobretudo, de mim mesmo. De súbito, acudiu-me que a partida de Ezequiel me concedia justas e merecidas férias. Férias dele. Não pude refrear um breve sorriso de júbilo. Com que então, meu rapaz, já era tempo! Pedi a Amâncio que abrisse uma garrafa de Bordeaux e a levasse à varanda. A tarde prometia um longo e fatigado poente. Estirado na chaise-longue, a olhar nuvens, identifiquei alguns mapas-mundi de nuvens vaporosas que formavam ilhas, mares interiores, continentes, lagos e promontórios. As partes em negro carregado eram cadeias de montanhas, as mais claras, vales; azul era sinal de água. Donatário daqueles mundos, eu enchia a taça e brindava à minha bonança. O vinho me sabia bem, espalhava no corpo um calor que as brisas sopradas pelas árvores da chácara não conseguiam atenuar. Pena que as nuvens se esgarçassem tão depressa; os meus continentes se desfaziam, outras terras e mares se formavam, mas eu, que já me tinha fixado em algum, sentia-me exilado cá embaixo. Esvaziei outra taça. A garrafa ia pela metade quando Ezequiel entrou e fez uma pilhéria:
— Papai bebe duplamente.
— Que queres dizer?
— Que bebes crepúsculo e vinho a um só tempo.
Pegou a garrafa, olhou o rótulo.
— Tu me acompanhas? — perguntei.
— Não. Mas devia.
— Por que?
— Pressinto que vais esgotar sozinho a garrafa...
— É só esta vez. Raramente bebo.
— Perdoa, papai. Já não és criança. Duas taças te bastariam. Assim, uma após outra, até acabar, podes ter azia, vomitar à noite.
— Seria um alívio, Ezequiel. Pois eu vomitaria o lodo. Aquele lodo que se vai acumulando em nós.
— Estás vendo? O vinho te sobe à cabeça, te faz trágico.
Calamos. Ezequiel baixou os olhos. Quando os suspendeu, foi para olhar também as nuvens. Tinham mudado de lugar e de forma, erravam pelo céu em doidas e rápidas fantasias. O sol poente as atravessava como por uma peneira; as cores do espectro, todas ou quase todas, filtravam-se, então, com um palor de vitral. Ezequiel suspirou.
— Costumas contemplar o céu?
— Só nos poentes.
— E o que buscas?
— A transcendência. Quero dizer, esse sentimento de transcendência que nos aflige, que nos persegue. Conheces John Constable?
— Não. Quem é?
— Não é mais; foi. Um paisagista inglês apaixonado por crepúsculos e nuvens. Estudou nuvens com minúcias de meteorologista. Um pintor admirável, precursor da escola impressionista. Podes compará-lo a Monet.
A conversa morreu como fogo de lenha não ativado. De quando em quando Ezequiel acrescentava uma acha e mexia com o atiçador, mas as minhas labaredas custavam a saltar, apesar de haver um brocardo que localiza no vinho as verdades mais recônditas. Talvez as achas estivessem úmidas. Acabei de beber da garrafa, taça a taça, gota a gota. Ezequiel olhava-me a furto. Afinal o disco do sol, depois de muita relutância, desceu e se fez noite. Chamaram-nos a cear. Antes de dormir, li uma crônica de Bilac, na Gazeta de Notícias, e dei com um despacho da Europa, em tipo miúdo, espremido a um canto de página: havia um surto de febres no Oriente Médio.
Para encerrar, curioso leitor, te digo que meu presuntivo filho partiu com a mesma presteza com que veio ver-me nessa solidão do Engenho Novo. Teve a gentileza de fazer-me prelibar o adeus uma semana antes; ia-se com os dois amigos arqueólogos Atlântico a fora, Mediterrâneo a dentro, para escavações na Terra Santa de muitas guerras diabólicas. Emiti letras de câmbio contra o Banco da Suíça e guarneci-o com uma mancheia de cédulas. Recebeu o dinheiro em espécie e as letras com naturalidade. Pouco tempo depois chegou-me a notícia de sua morte, levado pelo tifo. Assim são os fados: tecem nossos destinos sem nos dar aviso prévio. O seu pai Escobar, que era forte e bom nadador, bracejou bem nos ternos olhos de ressaca de Capitu, mas perdeu-se na ressaca bravia do mar; e, de consolo, já inteiriçado no ataúde, dela só teve olhos de mar manso em que, se ressaca havia, eram restos de saudades eróticas. Uns versos de Shakespeare comparam a vida dos homens a marés: se no rumo certo, produzem fortuna; se no fluxo errado, ou omitidas, encalham nos baixios e infortúnios.
E eis que agora passo à História dos Subúrbios.
(Salvador, maio de 2007. Incluído na antologia Capitou Mandou Flores, comemorativa dos cem anos de falecimento de Machado de Assis, em 2008)
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