Mesmo pregado ao leito, em roxo robe-de-chambre, que lhe dei a vestir para aguardar a visita do Barão, ele conserva o pincenê. É um hábito antigo, se o dispensar agora talvez perca a idéia que sempre fez do seu semblante, sentirá que lhe falta um sinal de identidade. As lentes são anteparos, ajudam a edulcorar a realidade, embora, às vezes, sempre sirvam para devassá-la, eis o que dizia o meu defunto Camilo, dado aos óculos de enxergar longe e perto. A mão de dedos escuros, que me parecem murchos, sobe ao rosto, em busca do afago da barba grisalha. Faz um gesto de quem pretende soerguer-se, e eu logo cuido de dar-lhe um travesseiro para encosto, que afofo, antes, com a palma da mão, em pancadas rápidas, antes que nele o meu vizinho ilustre repouse a cabeça. Ele entrega a cabeça ao travesseiro e balbucia algo, decerto um agradecimento. Maneiras severas, olhos encovados no rosto que me parece menos trigueiro, talvez porque a doença já o faça diáfano.
— Cansado? — pergunto pela necessidade de puxar conversa.
— Tudo cansa, até a solidão — ele me sopra de olhos semicerrados.
— Viva estivesse, D. Carolina não o deixaria ir sozinho ao Cais Pharoux. E lá ter, em público, a sua crise.
— É o de menos. Habituo-me. Estou só desde o dia 20 de outubro de 1904. Ficaram-me os olhos malferidos, e a memória cheia de pensamentos idos e vividos.
— Filhos fazem falta.
— Talvez. Mas não transmitimos a criatura alguma o legado da nossa miséria.
— O senhor e D. Carolina os evitaram por intenção ou acaso?
Ele inclina a cabeça e medita um pouco. Tive a impressão de que cochilava, quando, apenas, fora ao encalço da voz e a recolhera ainda audível.
— Creio que por acaso. Ou por força da natureza, que tudo pode e tudo transforma. Não vá pensar que Carolina e eu recorremos ao remédio que previne a concepção para sempre, e de que ouvi falar na rua do Ouvidor.
Meu vizinho famoso suspira e saca do bolso do robe-de-chambre, em gestos desajeitados, um lenço branco. Está loquaz, hoje. Ainda bem que o distraio, que o faço pensar em outros assuntos.
— Sente-se bem? Quer um copo com água fresca?
— Sinto a consciência, cara senhora. A consciência é o mais cru dos chicotes... O povo precisaria fazer anualmente o seu exame de consciência.
— Pelo menos, de legislatura em legislatura — eu arrisco.
— Concordo, embora seja pela discórdia. Concórdia e pântano são a mesma fonte de miasmas e mortes.
— Agora mesmo, essa fome nas províncias do Nordeste... — eu insinuo, de olhos voltados, sem querer, para o jornal dobrado sobre o criado-mudo. .
— Não nego as belezas do jejum, mas o céu fica tão longe, que um homem fraco pode cair na estrada, se não tiver alguma coisa no estômago.
Suspira. Será que já completou os oitenta?, eu pergunto a mim mesma. Distraída, a pensar nos anos, e em como eles correm, se é que não disparam, me ponho a arranjar maquinalmente um vaso de flores — rosas vermelhas, quase a desfolhar, que ele preferiu a um buquê de lírios do campo.
— O jornal diz que o governo está enviando comida aos flagelados.
— A comida não me preocupa. Virá de Boston ou de Nova York um processo para que a gente se nutra com a simples respiração do ar.
— De qualquer modo o governo simula ação, pressionado pela opinião pública.
— Suporta-se com paciência a cólica do próximo.
— Mas os saques? O que o senhor pensa dos saques a lojas e empórios?
— Não é a ocasião que faz o ladrão; a ocasião faz o furto; o ladrão nasce feito...
— Entendo. O senhor vota em que partido?
— Nenhum. Não me irrito, portanto, se me pagam mal um benefício. Antes cair das nuvens que de um terceiro andar.
— Já sei: o senhor, como muitos brasileiros, perdeu a fé.
— Não é bem assim. Tenho o coração disposto a aceitar tudo, não por inclinação à harmonia, senão por tédio à controvérsia.
Onde eu já teria ouvido ou lido essas palavras? Constrangida, porque a conversa já vai longa e o vizinho me parece debilitado, ponho-me a folhear o jornal.
— Vejo que a senhora não dispensa as folhas — observa ele, com um lampejo de vela mortiça nos olhos. — O maior pecado, depois do pecado, é a publicação do pecado.
— Se o senhor fosse presidente, o que faria?— pergunto.
— Eu, presidente? Sei que a presidência, aceita-se... Mas falta-me aquela força precisa para trair os amigos. Eu gostaria era de ser um rei sem súditos... Se eu perdesse um pé, não teria o desprazer de ver coxear os meus vassalos. Mas quem pode impedir que o povo queira ser mal governado? É um direito superior e anterior a todas as leis.
— E a corrupção, pensando bem, é uma lei humana...
— Mais ou menos, minha senhora. O conselho de Iago é que se meta dinheiro no bolso. Corrupção escondida vale tanto como a pública; a diferença é que não fede. Se tiver de sujar-se, suje-se gordo!
— No seu entender, o Brasil vai bem ou perde-se?
— O país real, esse é bom; o povo revela os melhores instintos; mas o país oficial, esse é caricato e burlesco.
Tal comentário traz à baila a questão da dívida externa, que data de longe, do tempo em que os financistas ingleses nos abriam as burras. Mas o meu interlocutor, que parece ter resposta engatilhada para tudo, objeta:
— Que é pagar uma dívida? É suprimir, sem necessidade urgente, a prova do crédito que um homem merece. Aumentá-la é fazer crescer a prova.
— O problema é que a dívida legou-nos uma herança trágica...
— Ora, heranças... Há dessas lutas terríveis na alma de um homem. Não, ninguém sabe o que se passa no interior de um sobrinho, tendo de chorar a morte de um tio e receber-lhe a herança. Oh, contraste maldito! Aparentemente tudo se recomporia, desistindo o sobrinho do dinheiro herdado; ah! Mas então seria chorar duas coisas: o tio e o dinheiro.
O enfermo a quem assisto por deveres de vizinhança, desde que D. Carolina se foi, disfarça leve bocejo e comenta, com um vestígio de sorriso irônico, que dormir é um modo interino de morrer. Então, aparentemente satisfeito com a interinidade, que lhe poupa trabalho pesado de amanuense, entra a dormitar. Saio na ponta dos pés.

2
Dentro da casa de fachada estreita e alta, na Rua Cosme Velho 18, as pessoas, que são poucas, se movem como sombras. Um criado quase surdo, um moleque de recados, visitantes raros — e, da vizinhança, apenas eu, D. Francisca de Bastos Cordeiro, inconsolável viúva. Falta uma sombra, a de D. Carolina, que se dissipou há quatro anos e se foi incorporar, com toques de dor serena, que costuma ser a mais constante, na memória do marido.
O escritor repousa. Está faz uma semana quase sempre deitado. Já não tem ânimo para escrever, para ler. Doem-lhe os olhos míopes, por mais que os aperte. O esforço para se concentrar vinca-lhe o rosto, acentua-lhe a austeridade de máscara mortuária. Entranha-se em todo o seu semblante uma severidade que não admite placidez, que promete ser ainda mais severa e grave.
Estamos em setembro, o ano é de 1908. A chuva e o frio cederam, ao que dizem os meteorologistas, tangidos para o mar alto Veio então, e pelo visto promete durar, um sol fraco, de sutil tecido de primavera, que não arde nem dói, e ao tombar das tardes nos banha qual tépido chuveiro. Ouço o estrépito de rodas de carroças, ouço estalar o chicote de almocreves. Liteiras passam, de cortinas cerradas, atrás das quais adivinho senhoras solitárias, empoadas, de chapelinho, véu e luvas, e de arfante colo rendado. Vão em busca de amantes que as esperam neste bairro de ajardinadas casas burguesas. Uma delas pode ser a tal de Marcela, que amou o Dr. Brás Cubas, segundo ouvi comentar, durante quinze meses e onze contos de réis. Estarei exagerando? Vez por outra me deixo enredar em cismares que são devaneios, enleios. Meu defunto Camilo, a paz esteja com ele, sempre me recriminava: “Francisca, volte!” Eu pestanejava, aflita. “O quê?” E ele, com um riso grosso de quem acabara de prestar honras a um almoço lauto: “Acorde, mulher. Retorne ao mundo dos vivos!”
O Barão do Rio Branco, que há pouco tempo anexou o território do Acre ao Brasil, soube da agonia lenta do escritor, quer vê-lo antes do fim. Uma visita ilustre, das mais honrosas. Avisou em carta entregue por um secretário de Embaixada. Preciso me preparar, ditar providências.: nova roupa de cama, móveis espanados e talvez lustrados, duas cadeiras de espaldar alto junto ao leito, toalhas e lenços na cômoda. As flores devem ser trocadas por outras que exalem discreto odor e façam bem aos olhos, alegrem o ambiente. Ele não me pediu. É senhor tímido, arredio, desses que cumprimentam sem sorrir, levando um dedo à aba da cartola. Sempre à distância, discreto, de modos corteses porém sem intimidades — e, quem sabe?, propenso até mesmo a repeli-las. Não me abordou: “Senhora D. Francisca, sei dos serões que passou ao pé de Carolina. Pois queira então, em lembrança de quem nos deixou, fazer as honras desta casa, neste meu transe que acredito derradeiro”. E eu, nesse caso, lhe responderia: “A honra será minha, Sr. Machado de Assis. Conte com os meus modestos préstimos. O senhor haverá de se restabelecer de pronto”.
Ultimamente, ele trocou a cama de casal por uma cama estreita, de ferro, na saleta de costura da finada Carolina, junto à sala de jantar, em frente à porta que abre para a entrada habitual, no patamar da sala. Ali passava o tempo, noite e dia, mergulhado em pensamentos, às vezes a mexer sozinho nas peças de um tabuleiro de xadrez. Saudades da mulher, decerto. Debruçado como que sobre si mesmo, ele emitia, então, um halo de luz cegante, enxergava mais fundo e mais além do que as lentes do pincenê . Até que a doença intestinal se agravou e o prendeu ao leito.
Dali, depois da já referida conversa, ele emergiu do sono sinônimo de morte e pulou para o tempo, sinônimo de tédio. Sugeriu a propósito o dilema: matamos o tempo, mas é o tempo que nos enterra.
Ecos de vozes e azáfama de trabalho duro nos chegam da rua. Vou à janela olhar: um grupo de negros suados, de torso nu, descarrega carroças de sacas de café. Comento que aquele trabalho é deveras pesado.
— O trabalho é honesto, mas há outras ocupações pouco menos honestas e muito mais lucrativas — suspira o velho.
Saca o lenço, limpa as lentes. Tem ar alheado. A observação sobre o trabalho o faz pensar em tema assemelhado.
— A honestidade — balbucia. — Ah, a honestidade... Se achares três mil-réis, leva-os à polícia; se achares três contos, leva-os a um banco.
— É tudo uma questão de consciência — eu arrisco.— E a boa consciência, muitas vezes, está com os vencidos da vida.
— Nada mais exato, minha cara senhora. Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas.
Pausa. A cabeça pende-lhe sobre o peito. Mas os olhos me parecem vivos, deles se desprende uma luz fina e mortiça, de vela prestes a se apagar. De repente, porém, ele volta a falar, como se reatasse um monólogo.
— Ah, se me sobrasse tempo para definir a alma humana...
— Como a definiria? Quer dizer-me?
— Eu diria, senhora D. Francisca, que ela é uma casa de pensão. Cada quarto abriga um vício ou uma virtude. Os bons são aqueles em quem os vícios dormem sempre e as virtudes velam, enquanto os maus...
Deixa a frase em suspenso, dobra o corpo e massageia um pé.
— São calos?
— São mazelas das botinas. Botas apertadas são uma das maiores venturas da terra, porque, fazendo doer os pés, dão azo ao prazer de as descalçar.
Aperta o pincenê nos olhos míopes, olha-me com firmeza e conclama:
— Mortifica os pés, desgraçado; desmortifica-os depois, e aí tens a felicidade barata, ao sabor dos sapateiros e de Epicuro.
Um vendedor de loterias tenta impingir na calçada da rua o sweepstake próximo. O enfermo ouve, procura-me com os olhos e conclama:
— Compre de vez em quando. A loteria é mulher, pode acabar cedendo um dia.
— Não sou chegada a jogos de azar...
— Pois eu adoro o xadrez. Jogo delicioso, por Deus!... a rainha come o peão, o peão come o bispo, o bispo come o cavalo, o cavalo come a rainha, e todos comem a todos. Graciosa anarquia...
Faz um movimento de quem vai erguer-se. Pergunto-lhe se quer ir ao banheiro, disponho-me a chamar o criado. Mas não, ele deseja apenas mudar de lado no leito. Faço um movimento de retirada, digo-lhe que são horas de recolher-me, que vou chamar o criado João.
— Não é que seja tarde. É que vai chover. Chuva de primavera. Tive um personagem que, quando o relógio parava, dava-lhe corda, para que ele não parasse de bater nunca, e ele pudesse contar todos os seus instantes perdidos.
— Tem certeza que vem chuva?
— Com pingos d’água é que se alagam as ruas. Ah, uma lágrima! Quem nos dera uma lágrima única! Mas o mundo cresceu do dilúvio para cá, a tal ponto que uma lágrima apenas chegaria a alagar Sergipe ou Bélgica.
3
Por mim, na calçada, passa um bêbado e dá vivas à Sereníssima República. Olho a rua, as casas, as árvores. As mangueiras estão pejadas de frutos verdes. Olho a praça distante, a ver se começa a inundar-se com o dilúvio de uma lágrima ou do pranto de todas as carpideiras deste mundo. E então, enquanto procuro na penca a chave da minha porta, acode-me a lembrança de D. Carolina, que sempre me acompanhava à porta, nas minhas despedidas, e estendia os dedos, no adeusinho fidalgo. Em sua companhia, umas vezes, eu matava o tempo que me mortificava: viúva com filho único na Academia Militar das Agulhas Negras, a casa imensa a falar, por todos os cômodos, cantos e móveis, da presença ruidosa de Camilo; e eu não a falar, que nessas coisas mostro pudor, mas a sentir em espírito e na carne — diria melhor: na carne viva — a medonha ausência de Camilo, ah, a falta que o nosso homem faz! Eu levava o meu cesto de costura, ela retomava o seu bordado — e senhora instruída que era, de muitas leituras, de muito remoer e pensar, enchia horas, eu mais a escutar que falar, enquanto a tarde era tangida com o seu rebanho de nuvens para as bandas do poente. Costurávamos, pois; e, de agulha na mão, a enfiar a linha, cosíamos as horas, enchíamos de alinhavos o nosso tédio mútuo, que era, o dela, de aguardar a chegada do marido, e o meu o de retornar a uma casa que sabia vazia. Num desses serões, contou-me que o marido havia descido, outro dia, alvoroçado do bonde, a olhar para trás, perseguido, ao que lhe dissera, por um importuno.
O Sr. Machado de Assis sai do Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, e levanta de leve a aba da cartola para duas ou três personalidades. E já antes de tomar o bonde rumo aos confins do Cosme Velho, dá com o olhar de um senhor também de sobrecasaca escura e chapéu alto. O olhar não é insistente, mas, de quando em vez, busca o grande escritor. Quem será? O Sr. Machado de Assis o conhece de algum lugar. Não seria dos cavacos na livraria Garnier, nem da Academia Brasileira. Talvez da vida burocrática, de algum serão em casa de comendador, quiçá do foyer do Teatro Lyrico. O Sr. Machado de Assis disfarça, olha para o outro lado e, ao volver os olhos, encontra os do desconhecido nele postos.
O bonde pára, eles tomam assento — e, por acaso, perto um do outro. Quem será?, pensa o Sr. Machado de Assis, a vasculhar os escaninhos da memória. Por fim, depois de tanto se olharem furtivamente, e desviarem a vista quando pilhados, os cavalheiros saem em campo aberto, sem lança, sem viseira, sem galgo corredor. Olham-se de maneira mais firme e, em gesto lento, estudado, erguem a cartola.
Ambos suspiram, aliviados. O bonde avança, pára, recolhe cavalheiros de rosto severo e senhoras de vestidos estufados. Outros saltam e, muito dignos, aprumam o porte e os passos na direção de suas soleiras. Mas quem será o cidadão ao lado? Conhece aquele rosto, o esboço de sorriso insinuante, a tez corada, o jeito próspero. Um alto comerciante importador de vinhos e vitualhas? Ou um dignitário que sobreviveu ao desmoronamento do Império? O Sr. Machado de Assis quer aproximar-se, mas o temperamento o impede: ama a humanidade, não há como negar, porém à distância, ela lá, ele aqui ou acolá. Sem intimidades.
O desconhecido deve morar nos arredores, porque descem juntos. O crepúsculo acaba de cair, mas não lhes atinge a cabeça. Cai sobre as árvores, as casas, a floresta próxima — e, naturalmente, faz D. Carolina apressar os preparativos da ceia.
Na calçada, levam dois dedos, outra vez, à aba da cartola. É quando o desconhecido não se contém:
— Vossa Excelência há de me perdoar o atrevimento...
O Sr. Machado de Assis detém-se, à espera.
— Pois eu sou o Palha. O Cristiano Palha, não recorda? Conversamos no comboio que descia de Minas. Vossa Excelência não é o Dr. Rubião?
Dá-se o estalo. Meu Deus, o Palha, aquele pulha, marido de Sophia, a sedutora Sophia que fingia querer dar para mais arteiramente tomar tudo.
— O senhor está equivocado! Passar bem!
Cartola enterrada na cabeça, irritado, o Sr. Machadod Assis entra em casa.
Assim me foi narrado, fio a pavio, por D. Carolina.
4
Na rua, de súbito, estalam rédeas, um cocheiro grita ordens, cavalos aquietam os cascos, uma portinhola abre-se com estalido. Dela desce, majestoso, o Barão das fronteiras, o hábil negociador internacional. Esperam-no à porta. Rio Branco cumprimenta, inteira-se do estado do escritor, tira o chapéu e entra. É guiado para a saleta dos serões solitários de D. Carolina, agora dominada pela presença da cama de ferro e do enfermo.
Este, no leito simples, parece inteiriçado, pronto para o ritual das pompas fúnebres, não fosse o movimento do rosto, que se descontrai num arremedo de sorriso de boas-vindas, e o movimento das mãos magras. O Barão acomoda numa cadeira o corpanzil, liberta as abas do fraque. Está calor. O criado quase surdo traz-lhe, pressuroso, um abano. Ao longe, vago rumor de carroças, gritos de almocreves e de pregoeiros.
Conversam. E o que conversam? Em tais circunstâncias, trocam amabilidades, frases convencionais. A visita é de cerimônia, é protocolar, é a presença da República à beira do leito de um moribundo ilustre que se ajustava melhor ao figurino do Império.
— Vou andando como posso — diz o Sr. Machado de Assis ao Barão, como teria dito a Joaquim Nabuco, que o consideraria, mais adiante, “um grego”, apesar de filho de mulato forro, dourador, com uma negra açoriana.
Rio Branco o acha com bom aspecto. O Sr. Machado de Assis esboça um sorriso:
— Estou fraco. Custa-me levantar, sentar-me à mesa, trabalhar, principalmente à noite. Estou a finar-me.
O diálogo prossegue, entremeado de pausas, o Barão sente o suor assomar-lhe ao rosto, tem a impressão de que acaba de molhar os cabelos. A atmosfera está agora mais pesada, viciosa. Do enfermo prostrado parece emanar um bafio de pântano, de contágio, de morbosidade, enfim.
Sobre um pequeno aparador, o tabuleiro de xadrez do escritor, com as peças nos lugares. O Barão ergue-se, pronuncia palavras gentis, de despedida, e aperta-lhe a mão. O Sr. Machado de Assis continua deitado. E da sua cama de ferro certamente ouve a minha voz, na sala:
— Tragam bacia e jarro de água fresca.
Somente agora penso nisso: eu poderia ter baixado a voz; caberia, nas circunstâncias, um sussurro a João, ou ao moleque. Mas a presença do Barão, imponente, dominador, fidalgo da calva à ponta dos dedos, me constrangia. Pouco depois, o rumor de água vertida na bacia e o gluglu de mãos gordas, ansiosas, que se molham e se limpam, se ensaboam e se enxagúam, e afinal são secadas em alvo pano de linho que ainda cheira a goma.
— Obrigado, minha senhora — diz alto o Barão do Rio Branco.
Inclino-me em lenta reverência, sem nada dizer. Aflita, esqueço de levantar com a mão direita a fímbria da saia, como era hábito nos salões reais. De onde estou, junto à porta, vejo que o Sr. Machado de Assis fecha os olhos. Vem-lhe a vontade de dormir, mergulhar de vez na voluptuosidade do Nada — ele que também foi um voluptuoso, embora mais dissimulado que o olhar de Capitu. Os olhos lhe ardem, no fundo, como se roçagados pela borra — aquela borra de velho vinho adulterado que se concentra no fundo do cálice da vida.
O Barão do Rio Branco salpica perfume nas mãos antes de sair.
De madrugada o meu enfermo geme. Estamos a 29 de setembro de 1908. Mais que um gemido, é um vagido de criança nos cueiros. Chego à beira da cama a tempo de vê-lo arquejar. Contrai o corpo, contrai o rosto, que já me parece máscara mortuária, no esforço da palavra derradeira:
— A vida é boa...
Teria eu ouvido direito? Ele disse boa ou coisa à-toa? Ainda hoje estou em dúvida. Cedo escoa? Ao primeiro sopro gélido se esboroa? Eu sempre o soube ateu ou agnóstico, ainda assim arrependo-me de não ter-lhe trazido um sacerdote para a extrema unção — ou uma vela acesa para nela se agarrar. Decerto ele enxergava bem, no mais escuro da alma. Mas a luz de uma vela, por mais fraca, sempre ajuda a clarear os caminhos do retorno, que se apagam quando aprendemos a andar.
(Homenagem a Machado de Assis, no centenário de seu falecimento. O fino leitor saberá identificar, nos diálogos do Mestre com a vizinha, as frases pinçadas de seus romances e contos)